Flávia Duarte, Maria Mazzei e Paula Sarapu
Rio - O Ministério Público Federal investigará cerca de 240 pessoas e empresas que tenham ligação com os presos da Operação Furacão 1 em busca de provas de enriquecimento ilícito. Já foi solicitado à Receita Federal levantamento das variações de renda e patrimônio dos suspeitos nos últimos cinco anos. Empréstimos e negociações de imóveis, usados freqüentemente para encobrir lavagem de dinheiro ilegal, também serão analisados.
Levantamento realizado por O DIA mostrou que policiais presos na Operação Furacão 2 são donos de imóveis de valores incompatíveis com os salários de servidor público. Em média, um inspetor de polícia ganha R$ 2 mil. As investigações do Ministério Público Federal que estão começando deverão ser ampliadas, para incluir os novos denunciados.
Pela lei da lavagem de dinheiro, cabe ao acusado provar a legalidade de seus bens e recursos quando ele já está respondendo por crimes como formação de quadrilha, contrabando e contra a administração pública. Os mais de R$ 20 milhões em dinheiro e bens apreendidos com os presos, na operação de 13 de abril, dão mostra do poderio econômico da máfia que explora jogos ilegais.
Os bicheiros são conhecidos pela ostentação de riqueza, mas surpreende o nível de vida de alguns policiais presos na Furacão 2. A casa de veraneio num condomínio de luxo de Camboinhas, na Região Oceânica de Niterói, estaria acima do que o inspetor da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) Paulo Roberto de Carvalho Moreira da Silva, o Boca, poderia pagar como funcionário público. Ele é um dos quatro foragidos.
A investigação da Polícia Federal ressalta que Boca engordava o orçamento fazendo segurança de casas de bingo e boates em Copacabana. Com vigilância reforçada, o Ubá Camboinhas abriga residências com área de lazer própria, avaliadas entre R$ 260 mil e R$ 600 mil. A vizinhança é de empresários, médicos e juízes.
Com salário de R$ 2.200 (R$ 1.900 com descontos), Ronaldo Rodrigues, inspetor de polícia de 4ª classe na Coordenadoria das Delegacias de Acervo Cartorário, mora em apartamento de três quartos no condomínio Varandas de Botafogo, na Rua Visconde Silva. Só o condomínio custa R$ 500.
Já o oficial de cartório José Alexandre dos Santos, lotado na Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas, deixou há três meses o apart-hotel São Clemente Residence Service, em Botafogo. Por dois anos, ele e a família usufruíram dos serviços do flat, como academia de ginástica, cyber café (lanchonete com computadores), piscina, sauna, churrasqueira, lavanderia e arrumadeira. Pagava R$ 1.700 pelo aluguel do apartamento de dois quartos, no bloco 2, e R$ 650 de condomínio. Na vaga da garagem, Peugeot 206.
Levantamento em imobiliária indica que os apartamentos dos inspetores Luiz Carlos Rodrigues e Luiz Henrique Rossetti, nos condomínios Barra Bali e Special Bali, na Barra da Tijuca, custam R$ 200 mil. O relatório da PF também aponta que o inspetor Armando Jorge Varella de Almeid, lotado em aeroporto do Rio, mora num apartamento na Rua Bolívar, em Copacabana, próximo ao Corte do Cantagalo. O custo seria de R$ 1.500.
R$ 1,42 milhão
Segundo relatório da Federal encaminhado ao Ministério Público Federal, as “despesas da organização criminosa” variavam conforme o órgão e suas atribuições. Em lista apreendida na sede da quadrilha, um apartamento de Júlio Guimarães, denominado Preta, na Tijuca, constam os valores pagos a cada um. No total, o gasto chegava a R$ 1.420.600.
A Polícia Civil recebia o maior valor: R$ 848.600. As polícias Militar e Federal empataram com R$ 240 mil. Políticos mereceram R$ 23 mil. O escritório saía por R$ 45 mil e a folha de pagamento de funcionários era de R$ 61 mil. A propina paga aos federais era principalmente para não reprimir caça-níqueis — R$ 230 mil. O restante era para não coibir jogo do bicho. Na Polícia Civil, a relação era inversa. Para o MPF, isso ocorria devido às atribuições de cada unidade.