Carol Medeiros e Daniela Dariano
Rio - Jovens, filhos da classe média alta, universitários, moradores de condomínio de luxo e capazes de um ato de barbárie e violência. Depois de passarem a noite numa boate no Joá, bebendo e se divertindo, cinco amigos roubaram e espancaram a empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, 32 anos, num ponto de ônibus, na Barra, onde ela esperava pela condução que a levaria ao médico. O crime aconteceu por volta das 4h40 de sábado. Três dos pitboys foram presos na madrugada de ontem.
Felippe de Macedo Nery Neto, 20, aluno de Administração, Leonardo Andrade, 19, técnico em informática, e Júlio Junqueira, 21, estudante de Gastronomia, confessaram o crime na 16ª DP (Barra da Tijuca) e foram levados para a Polinter. Ao prestar depoimento, um deles tentou justificar o ato, dizendo ter confundido Sirley com uma prostituta. Outros dois participantes da agressão — Rubens Arruda, 19, estudante de Direito, e o aluno do último período de Turismo Rodrigo Bassalo, 21, apontado como líder do grupo — continuam foragidos.
RISOS E DEBOCHE
Para pegar os pertences da vítima, os jovens desferiram vários chutes, cotoveladas e socos na cabeça e rosto de Sirley, que ficou deformado. Rindo e debochando, deixaram o local do crime, na Avenida Lúcio Costa, levando R$ 45 da vítima, além do celular que ela ainda não terminou de pagar, documentos e um guarda-chuva.
A agressão aconteceu quando a doméstica saía do trabalho, no condomínio Summer Dreams, para uma consulta médica, marcada para as 8h em Imbariê, Duque de Caxias, onde mora.
Sirley contou que não teve tempo de pedir socorro ou perguntar por que estava sendo agredida: “Não deu tempo de falar nada, chegaram me batendo. Levaram até os papéis do exame que eu saí cedo pra fazer”. Muito machucada, ela voltou ao apartamento onde trabalha há três meses e foi levada pelos patrões à delegacia. Pela gravidade dos ferimentos, foi encaminhada ao Hospital Lourenço Jorge antes de prestar depoimento.
Um taxista que passava pelo local viu a agressão e anotou a placa do carro, um Gol 2007 (LOZ-6926). Sem se identificar, deixou a anotação na portaria do prédio. Pela placa, a polícia chegou ao proprietário do carro, Felippe, que se apresentou na madrugada de ontem e delatou os amigos. Em depoimento, afirmou que não saiu do veículo e viu a agressão pelo retrovisor. Disse que os rapazes, com exceção dele, consumiram bebida alcóolica.
Leonardo e Júlio foram presos no início da manhã de ontem. “A intenção era barbarizar. Os cinco saltaram do carro e espancaram uma pessoa simples violentamente”, disse o delegado Carlos Augusto Pinto. Na delegacia, um deles gabava-se de ter família rica, o que o livraria da punição. “Ele falou que tem condições financeiras e seria fácil se livrar do problema”, contou o delegado Carlos Augusto.
As buscas a Rubens e Rodrigo continuaram durante todo o dia. Os cinco serão acusados de tentativa de latrocínio (roubo seguido de morte), por darem todos golpes na cabeça da vítima, com risco evidente de morte. A pena vai de 12 a 15 anos de reclusão. A Justiça decretou prisão temporária dos cinco acusados.
NO ORKUT, AGRESSORES EXALTAM HÁBITO DE BEBER E SÃO CRITICADOS
Rodrigo, Júlio, Rubens, Leonardo e Felippe são vizinhos no condomínio de luxo Parque das Rosas, na Barra. Orgulhosos de seu estilo de vida, em suas páginas pessoais no site de relacionamento Orkut definem-se como playboys. Freqüentadores de raves (festas de música eletrônica), alguns deles participam de comunidades que exaltam a irresponsabilidade e a inconseqüência, como “Fui tomar juízo e só tinha Vodka”, “Sem fazer m. não tem graça” e ”É fazendo m. que se aduba a vida”.
Tão logo a notícia de suas prisões se espalhou, multiplicaram-se mensagens de revolta deixadas para os agressores. “Vocês vão aprender a não bater em mulher. Vão te violentar na cadeia”, dizia uma delas. A comunidade “Empregada espancada pelos 5” foi criada para divulgar o crime e o endereço dos perfis dos envolvidos.
Ainda foragido, Rodrigo admite no Orkut ser marrento e beber excessivamente. É membro da comunidade “Bon Vivant”, criada para “malandros que gostam da vida mansa, vagabundagem e acham muito bom torrar dinheiro na boate com álcool”.
No perfil de outro foragido, Rubens Arruda (Rubinho), amiga pede que ele tenha mais juízo agora que entrou na faculdade.
DEPOIMENTO: ‘EU SOUBE EDUCAR OS FILHOS’
“Sinto um pouco de pena deles (os agressores), pela falta de estrutura, não digo nem familiar, mas mental mesmo. Um rapaz que faz uma coisa dessas não tem estrutura. Mesmo se fosse uma prostituta, ninguém é merecedor de agressão.
Eles precisam de tratamento, que os pais olhem para ver se estão dando atenção a eles. Sou pai de quatro filhos, íntegro e trabalhador. Não pude dar uma bicicleta aos meus filhos, mas dei limites. Os jovens hoje têm muita mordomia, liberdade. Os pais devem tentar saber o que os filhos fazem fora de casa, depois das 22h.
Como pobres, lutamos dignamente para sobreviver. Ela (Sirley) é batalhadora. Não tem dia nem hora para trabalhar. E eles tiraram o direito de ela ganhar mais um pouco. Logo quem ganha a vida facilmente, com o dinheiro dos pais. Agora eu vejo que soube educar os meus filhos.” Renato Moreira Carvalho, 54 anos, pedreiro, pai de Sirley