Rio - O retirante mineiro que jurou aos 12 anos para o pai que jamais entraria em uma delegacia chora ao lembrar a promessa quebrada. “Disse para o meu velho que nunca lhe daria esse desgosto.” Aos 54 anos, o pedreiro Renato Moreira Carvalho viveu a pior experiência da sua vida ao ver a filha, a doméstica Sirlei de Carvalho, 32, com hematomas pelo corpo. Por um capricho do destino, foi justamente numa unidade policial, onde sempre temeu entrar, que ele tirou lições e certezas para toda a vida. A mais importante delas é que, apesar do pouco estudo e da falta de recursos financeiros, acertou na educação dos quatro filhos. “Meus meninos nunca tiveram nada, mas receberam amor. O que não pude dar em bens materiais, dei em espiritualidade”, diz ele, abraçado a Everton, 25 anos, e Vitória, 7.
—O senhor veio de uma família pobre, mas diz que nunca deixou a dificuldade financeira atrapalhar a educação de seus filhos. De onde veio o exemplo?
—Dei a eles liberdade com responsabilidade. Se eu levantar o dedo ou olhar, já sabem o que quero. Eduquei meus filhos como meu pai me educou. Era dureza, o rigor, a exigência de não errar vinda do meu pai, que se misturava com a amorosidade da minha mãe. Não tínhamos televisão, geladeira, bicicleta, mas é impossível explicar o amor que eu e meus irmãos sentíamos pelos dois.
—Os pais conseguem ter controle sobre os filhos?
—Penso assim: enquanto estiverem vivendo sob o meu teto, se alimentando da comida que compro, vestindo o que eu dou, quem manda sou eu. Não tem essa história de que vou ali e volto. Vai com a minha ordem e volta, sim, do jeito que combinamos. Disciplina e liberdade devem caminhar juntas. Prego o diálogo e isso sempre funcionou. Não é à toa que nunca tive problema com meus filhos. Digo sempre: quem tem vergonha não faz vergonha.
—O que você diria para o empresário Ludovico Ramalho (pai de Rubens Arruda), que disse ser injusto que os adolescentes fiquem presos?
—Eu diria: ‘Se fosse o meu filho que fizesse isso com a sua filha, o que o senhor faria?’. Tenho certeza de que ele diria que a Justiça se encarregaria de resolver. Pois bem, então também quero que Justiça seja feita. A lei é para todos, independentemente de grau social, cor e religião das pessoas.
—Para o senhor, o que passou pela cabeça deles quando atacaram sua filha?
—Aqueles rapazes, quando a agrediram, tiraram dela o direito ao trabalho, ao sustento do filho dela, de ir e vir. Que razão eles têm em agir de forma tão violenta contra uma pessoa que eles nunca viram na vida? E qual o problema se fosse uma prostituta? Não é a profissão da minha filha, mas não condeno quem quer vender o corpo. Muitas dessas meninas têm pais doentes em casa, filhos e vêem na vida na rua a única forma de conseguir sustento. Não cabe a mim e a mais ninguém julgá-las.
—Há perdão?
—A Sirlei tem uma presença de espírito tão grande que parece ser uma predestinada. Quando ela me viu na delegacia, me disse: ‘Pai, o que vai acontecer com esses garotos na cadeia?’. Falei: ‘Não estamos jogando eles lá, eles é que se jogaram sozinhos no fundo do poço’.
—Qual o seu recado para os pais dos agressores?
—Diria para eles que estamos sofrendo do mesmo mal. Tenho uma filha que é vítima de agressão, e eles são pais, vítimas do erro dos próprios filhos.
—O senhor contou que chegou a ter problemas com bebida, mas conseguiu reverter isso na família de forma positiva. Como foi?
—Há sete anos, tive um princípio de acidente vascular cerebral. Estava com meu filho numa obra e, sem que ele percebesse, fui para um canto e me deitei porque estava passando muito mal. Por duas vezes, vi o mundo se apagar. Prometi que, se fosse a bebida, nunca mais colocaria uma gota de álcool na boca. Acho que pela educação que dei, eles nunca beberam ou fumaram. Mesmo quando um deles saía para comprar cerveja para mim, quando voltava, eu cheirava a boca deles para saber se tinham experimentado. Felizmente, consegui me livrar desse mal sem nunca despertar qualquer interesse por parte deles.