Rio - A violência sofrida pela doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, 32 anos, repercutiu até entre os detentos da carceragem da Polinter, no Grajaú, para onde os cinco agressores foram levados. Os pavilhões ocupados por presos da facção criminosa Comando Vermelho quase foram abaixo quando os rapazes caminharam para as suas celas. Aos gritos de “joguem os playboys aqui” e ameaças de linchamento dentro da cadeia, os presos levaram os universitários aos prantos. Com medo de ser mortos, eles nem conseguiram dormir.
“Quando eles chegaram, a cadeia estremeceu, parecia que ia explodir. Querem trucidá-los lá dentro. Um ato de violência não pode justificar outro”, disse o empresário Ludovico Ramalho, pai de Rubens Arruda, 19 anos. Os pitboys, segundo parentes, não têm se alimentado. Em frente à Polinter, foi colocado um cartaz num poste pedindo punição para os jovens.
A polícia decidiu indiciar os cinco universitários também por formação de quadrilha. Um sexto ocupante do carro em que eles estavam, Arthur, prometeu se apresentar hoje à 16ª DP (Barra).
A polícia vai investigar denúncias de que um dos presos, Júlio Junqueira, traficava drogas em seu quiosque, em frente ao condomínio Park Palace, na Barra. O delegado Carlos Augusto Nogueira disse que o fato de Leonardo Andrade não ter agredido Sirlei — ele ficou rindo — não servirá como atenuante. Os jovens podem pegar até 30 anos de prisão.
Imagens das câmeras do prédio onde Sirlei trabalha mostram que ela saiu às 4h30, sorrindo, com a bolsa no ombro, e cumprimentou o porteiro. Quinze minutos depois, voltou agredida, sem a bolsa e com as mãos no rosto. A filmagem mostra também o taxista entregando o papel com a placa do carro onde estavam os agressores.
A polícia teve a informação que uma mulher chegou a alertar Sirlei de que ela não deveria ficar no ponto: “Eles passam aqui bagunçando a gente”, teria dito.
Na mesma noite, o grupo parou num posto de gasolina e bateu num rapaz que tocava violão numa praça ao lado. Um funcionário do posto reconheceu Rubens e Leonardo como os agressores.
MOTORISTA TEME REPRESÁLIAS
Responsável pela denúncia que levou à prisão os cinco acusados e, por isso, temendo represálias, o taxista M.A., 46 anos, mostrou muito nervosismo durante depoimento, ontem, na 16ª DP: chegou a tomar dois calmantes. Por duas horas, relatou a crueldade do grupo que espancou Sirlei. M. seguia pela orla e fez retornou em direção ao Recreio quando viu os jovens agredindo a doméstica e outras duas mulheres. O sentimento de revolta o fez seguir o carro e anotar a placa.
Taxista auxiliar há cinco anos, pai de dois filhos — um deles da mesma idade dos agressores —, M. chegou a jogar farol alto para identificar o Gol. Também fez questão de emparelhar com o veículo, na tentativa de identificar os garotos. Eles tinham parado em um posto de gasolina onde, meia hora depois, também agrediram um jovem que tocava violão com os amigos, numa praça ao lado.
M. não dormia desde domingo, quando soube da prisão dos pitboys. Durante todo o depoimento, o taxista chorou muito. Ele contou ao delegado que viu o momento em que arrancaram a bolsa de Sirlei. Segundo o taxista, ela caiu no chão e continuou apanhando. As outras duas mulheres conseguiram correr.
No ponto de táxi da Freguesia, M. é conhecido pelo temperamento calmo e boa índole. Segundo o dono do carro que ele dirige, uma vez o taxista faturou muito e quis pagar mais do que a diária de R$ 50.
Aos colegas, M. disse que ficou chocado com a brutalidade e que não sabe de onde tirou forças para entregar o grupo.
Pais sofrem com o crime dos filhos
“A vida dele acabou.” Encostado numa pilastra em frente à Polinter, Ludovico Ramalho parecia não acreditar na prisão do filho Rubens. Com seis quilos a menos e sem dormir desde domingo, ele diz que espera acordar do pesadelo. “Queria que diferenciassem o pai do cidadão. Se ele é culpado, tem que pagar. Não vou passar a mão na cabeça dele. Só não posso sair falando mal da pessoa que amo incondicionalmente no momento que ela tanto precisa”, comentou ele, acrescentando que teria a mesma iniciativa do taxista e também denunciaria os agressores.
Para o pai de Leonardo, o empresário Carlos Sérgio Andrade, o filho vai carregar para sempre o estigma de agressor: “Vai ser difícil a sociedade olhar para ele como um inocente. Sempre vão dizer que o pai tem dinheiro, que a Justiça é falha, que há impunidade. Mês que vem é aniversário de 3 anos do filho dele. Estamos tentando preservar a criança, que também virou alvo da raiva das pessoas. Ela não tem culpa”.