Rio - Oficiais da Polícia Militar enviaram uma carta ao governador Sérgio Cabral nesta segunda-feira. Eles reclamam dos baixos salários, da inoperância dos benefícios aos quais têm direito e das péssimas condições de trabalho. Confira os principais trechos do documento:
"Nós acreditamos que dias melhores viriam. Acreditamos na clara sinalização de que antigos pleitos lograriam, enfim, a devida atenção. Acreditamos quando observamos em nossas publicações internas a nomeação de comissões para a apresentação de propostas concretas alusivas às nossas maiores agruras. Acreditamos nas palavras de nossos mandatários, quando diziam, com vigor poucas vezes visto, que era "à vera".
Dias e meses se passaram, mais vidas dos nossos foram ceifadas, e nós não recebemos até o momento sequer satisfação objetiva quanto ao atendimento ou não do que foi pleiteado. Continuamos a ver nossos subordinados premidos à utilização de viaturas sem condições mínimas de trafegabilidade, a observar clara leniência estatal em relação ao jogo do bicho, a conviver com vergonhosa escassez de fardamento e de equipamento de proteção individual para nossa tropa, a conviver com a incerteza quanto à percepção mesmo do que é nosso direito, como o valor remuneratório de 1/3 alusivo às férias.
Continuamos a lidar com a imoral utilização de verba destinada à alimentação para a manutenção das Unidades, a observar a ausência de utilização de parâmetros quanto à carga horária que nos é imposta, a não ter carga horária definida e, menos ainda, o pagamento de horas extraordinárias de trabalho; continuamos a ver nossas pensionistas privadas do instituto legal da pensão militar, a observar as dificuldades de nossos militares incapacitados definitivamente para o serviço, privados que estão da percepção de integralidade trienal.
Continuamos a lidar com as dificuldades de nosso sistema de saúde, credor em quase R$100.000.000,00 em relação ao próprio estado do RJ, inadimplente nos repasses legais que insiste em ignorar. Continuamos a observar a subutilização de nossos militares, presos a arcaicos paradigmas, atuando como meros "garotos de recados" em relação às Delegacias de Polícia e impossibilitados de acessar os mais elementares bancos de dados. Continuamos a aguardar pacientemente a conformação de nosso estatuto disciplinar ao regramento constitucional.
Como se não bastasse, continuamos ainda a lidar com perspectivas outras que tendem a promover o agravamento da conjuntura na qual nos encontramos, como, por exemplo, a elevação do tempo de interstício para promoções e ainda o alargamento do tempo de permanência no último posto da Corporação. Mesmo assim, continuamos a partir para o enfrentamento da criminalidade, mote tão apregoado ao longo dos últimos meses; e continuamos, é claro, a observar os nossos sucumbirem e, mesmo assim, diante de tudo o que nos falta, continuamos.
E continuamos, caro mandatário, a merecer remuneração vexatória, qualificação derivada não apenas tendo em conta o trabalho realizado e, principalmente, as condições em que ainda é feito, mas considerando ainda as discrepâncias existentes em relação aos nossos próprios irmãos de armas, integrantes da briosa Polícia Civil do mesmo Rio de Janeiro. Como falar em integração policial, quando o topo de dada instituição percebe mais de que 1500% em relação à base da outra? Quando mesmo entre níveis de autoridade relativamente equivalentes, as discrepâncias variam, sempre, entre dois e três dígitos percentuais?
Pois bem, não vamos falar aqui da "Polícia que queremos", pois sabemos que todos os pleitos já lhe foram encaminhados. Vamos falar em respeito!"