Rio - Em meio a maior pressão do funcionalismo por aumento salarial dos últimos 10 anos, o governo do estado decidiu trocar as advertências por punição concreta. Servidores da Educação que não trabalharam ontem terão o ponto cortado já nos salários que serão pagos em setembro. O mesmo vai acontecer com agentes da Polícia Civil, que começam segunda-feira paralisação de 72 horas e não demonstram preocupação com o corte de ponto.
Professores suspenderam as aulas até terça-feira contra o reajuste de 25%, parcelado em 24 meses, mesmo índice que desagrada a profissionais da Segurança Pública e da Saúde. A Secretaria Estadual de Educação informou que menos de 1% dos professores da rede teria cruzado os braços. Já a coordenadora do sindicato da categoria, Beatriz Lugão, disse que mais de 50% dos docentes estavam parados. “Esse número vai aumentar na segunda-feira, pois muitos professores que trabalham no Grande Rio não estavam sabendo da greve”, previu.
Para terça-feira, o pessoal da Educação marcou passeata até o Palácio Guanabara, com concentração no Largo do Machado, a partir das 10h. Depois ocorre assembléia para definir se a categoria volta ou não ao trabalho.
Em nota, a Secretaria de Educação lembrou que vem dialogando com os sindicatos há sete meses e que, nesse período, já foram atendidos vários pedidos da categoria, como a efetivação de professores concursados de 2004, a anistia dos dias de greve anteriores dos servidores e o enquadramento de docentes por formação, o que beneficiou 8 mil professores com aumentos entre 12% e 36%. A Apefaetec (Associação dos Profissionais da Faetec) anunciou uma paralisação de 24 horas na quarta-feira, dia 22.
Os alunos que ficaram sem aula ontem reclamaram. “Eu quero estudar. Não agüento mais chegar aqui e ter de voltar para casa”, queixou-se Kathleen da Conceição dos Santos, 15 anos, estudante do 1º ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, que não funcionou nos turnos da manhã e da tarde. Só pela manhã, 1.300 estudantes que estão matriculados na unidade ficaram sem aula. Os alunos da rede estadual vêm tendo dificuldades para estudar desde o início do ano por falta de docentes. Mas, em colégios como o Souza Aguiar, no Centro do Rio, houve aula. “Não teremos aumento real, acho uma falta de respeito”, queixou-se o professor de História Claudio Antônio, que, apesar da reclamação, trabalhou normalmente nesta sexta.
O governador Sérgio Cabral disse compreender a ansiedade e a insatisfação do pessoal da Educação, mas argumentou que não é milagreiro. “Eu, em oito meses, não vou conseguir repor tudo o que eles perderam em uma década. Eu não vou aceitar insubordinação”, advertiu, em frente à Capela do Cristo Redentor, onde seu filho Mateus foi batizado.
Cabral alegou ainda estar recebendo apoio nas ruas de professores, policiais, médicos e inativos. “Foram atendidos 286 mil servidores. Eles estão reconhecendo o esforço do governo”, disse.
Delegados vão apoiar paralisação de agentes
Delegados da Polícia Civil decidiram nesta sexta, em assembléia, que não vão entrar em greve. A categoria escolheu outra forma de manifestar sua insatisfação com o aumento de 25%, parcelado em 24 meses: terça-feira, vão ao Palácio Guanabara entregar documento ao governador Sérgio Cabral pedindo a retirada da proposta e a reabertura das negociações. Os delegados também decidiram não punir os agentes que paralisarem suas atividades.
“Com a greve dos agentes, a Polícia Civil como um todo também pára. Nosso trabalho fica prejudicado sem os agentes”, afirmou a presidente do Sindicato dos Delegados, Jéssica Almeida.
Ainda segundo ela, o reajuste linear serviu para aumentar as diferenças salariais existentes entre as três classes de delegados. “Era melhor ter dado percentuais diferenciados”, disse.
Investigações interrompidas por 72 horas
O Sindicato dos Policiais Civis considerou “indecente” o aumento dado pelo estado. Segundo a entidade, a confiança no governo foi rompida após o anúncio dos 25%, que aconteceu horas antes de reunião que estava marcada entre os representantes dos policiais e o secretário de Planejamento, Sérgio Ruy Barbosa, que teria como tema exatamente o reajuste da categoria.
“O governo não só deixou de atender o reescalonamento (principal reivindicação da categoria), como também não atendeu a nenhuma outra reivindicação apresentada desde a posse de Sérgio Cabral”, disse Fernando Bandeira, presidente do sindicato. A greve de 72 horas dos policiais civis vai começar na segunda-feira. Será mantido um efetivo mínimo de 30% no trabalho, mas as investigações de ocorrências serão interrompidas.