Dor marca o dia seguinte
Famílias choram a morte e o sofrimento das vítimas. Uma delas ainda não foi identificada
Rio - O dia de ontem foi marcado pela dor para os parentes das vítimas do trem do ramal de Japeri que reconheceram parentes no Instituto Médico-Legal (IML) de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Dos oito mortos da tragédia de quinta-feira, sete foram identificados: Jessé da Silva Loroza, 70; Severino Inácio da Silva, 47; Renan Pedrosa Moreira, 18; Jerônimo Pereira dos Santos, 30; Érica da Silva, 25; Rosana Teófilo do Nascimento, 46, e Heleno Paiva da Costa, 21. O outro permanecia sem identificação até a noite.
A família de Renan foi uma das primeiras a chegar ao IML. “Queremos ele de volta! O Renan era a minha vida! Por que Deus foi levar um rapaz tão bom? Ele era um anjo”, desabafou Maria Célia Moreira dos Santos, 47, tia do rapaz. Segundo parentes, Renan trabalhava na parte de manutenção de máquinas da Granfino, em Nova Iguaçu, e na tarde do acidente voltava para casa — em Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri — de um curso de especialização no Senai do município.
A avó do jovem, Rita Pedrosa, 57, passou mal e teve de ser medicada. Os pais, Gílson Gomes Moreira e Maria Aparecida Moreira, também estavam inconsoláveis com a perda do único filho. “Não posso perder um filho assim”, lamentou o pai. O corpo de Renan foi velado ontem no Cemitério de Queimados e será enterrado hoje, às 10h.
É A ROUPA DO PAPAI?’
A tragédia sobre trilhos também deixou crianças sem pais. “Vocês estão pegando a roupa do papai? O papai estava no trem?”, perguntava a pequena Josiane Pereira dos Santos, de apenas 3 anos, enquanto parentes do pai dela, Jerônimo, pegavam peças de roupa para o velório. “Ainda não contamos para ela. Não sabemos como vamos fazer isso”, revelou a viúva, Vanda Jesus dos Santos, 31. Assim como grande parte dos cerca de 800 passageiros que estavam no trem, Jerônimo voltava do trabalho na hora da colisão. Era era motorista de caminhão numa empresa em Vila Isabel, no Rio.
Segundo Vanda, antes de sair de casa, em Austin, Nova Iguaçu, o marido deu o último beijo. O cunhado Aguinaldo Oliveira Santos, que reconheceu o corpo, contou que Jerônimo voltaria para casa de ônibus, mas preferiu ir de trem porque chegaria em casa mais cedo. O motorista foi sepultado ontem à tarde no cemitério Carlos Sampaio, em Austin.
Um bebê de 1 ano e cinco meses também terá de crescer sem a mãe. Érica da Silva, 25, deixou o sonho de criar o pequeno Eric no primeiro vagão do trem que seguia para Japeri. De acordo com parentes, a jovem saiu de Engenheiro Pedreira, onde morava, às 13h. “Tinha ido a Nova Iguaçu para comprar um nebulizador para curar a tosse do Eric. Ela contou que na noite anterior o menino não havia conseguido dormir porque tossia demais. Essa criança era tudo para ela”, contou Ana Paula de Lima, 29, prima de Érica. Segundo parentes, o marido de Érica não permaneceu no IML porque estava muito abalado com a tragédia.
BEBÊ CHAMA PELA MÃE
A família tentou contato pelo celular com a vítima, pouco depois do acidente, mas só soube da morte quando um amigo que trabalha na Prefeitura de Nova Iguaçu confirmou. “O pior é o bebê, que é muito apegado à mãe e chama por ela o tempo todo”, contou Ana Paula. O corpo de Érica foi enterrado ontem à tarde, no Cemitério de Engenheiro Pedreira.
GAROTINHO ANUNCIA MORTE A PARENTE
A agonia de Rosângela Theófilo, 48, ao saber da morte da irmã, a doméstica Rosana Theófilo, 46 anos, foi ao ar ao vivo em programa da Rádio Manchete. Ela concedia uma entrevista sobre a procura da irmã quando foi informada da morte pelo locutor, o ex-governador Anthony Garotinho. O desabafo foi um choro sofrido. Precisou ser amparada pelos repórteres, antes de seguir para o IML, local que a família estava evitando desde o início do drama. A vítima será sepultada hoje, às 11h, no Cemitério de Engenheiro Pedreira.
A busca por Rosana começou na véspera. Parentes se dividiram para percorrer hospitais. Na manhã de ontem, apesar de não ter conseguido localizar o nome da irmã, Rosângela manteve a esperança ao atender a ligação do sobrinho Gustavo, de 9 anos.
“Calma, meu amor, não chora, não! Daqui a pouco vou ligar com uma boa notícia sobre a mamãe”, disse ao menino. Rosângela contou que Rosana voltava do trabalho para buscar o caçula, Rafael, 7 anos, na escola.
Segundo a irmã, Rosana pegou o trem na estação do Engenho de Dentro e desembarcaria em Engenheiro Pedreira. “Perdemos nossos pais há pouco tempo e não podíamos perdê-la agora”, afirmou.
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