Mahomed Saigg e Maria Luisa Barros
Rio - Modernos trens equipados com ar-condicionado, intervalos menores entre as viagens, limpeza dos vagões e até sofisticado sistema de bilhetagem eletrônica. Apesar das melhorias implantadas para oferecer mais conforto aos 450 mil passageiros por dia, a rede ferroviária do Rio continua operando, em parte, com o antigo sistema manual de Controle de Operações, herdado da extinta Flumitrens. Passados nove anos desde a privatização, a concessionária que venceu a concorrência para explorar o serviço até 2023 — SuperVia — ainda não informatizou totalmente as operações de monitoramento da malha ferroviária.
Titular da 58ª DP (Posse), o delegado Fábio Pacífico, que instaurou inquérito para apurar as causas do acidente envolvendo duas composições da SuperVia, em Austin, Nova Iguaçu, quinta-feira, acredita que o choque foi provocado por falha humana. Segundo ele, as evidências apontam para erro dos operadores que trabalhavam no Centro de Controle de Operações (CCO) da concessionária na hora da tragédia, na qual morreram oito pessoas e 101 ficaram feridas.
O Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio (Crea-RJ) endossa a tese da polícia, indicando um erro de cálculo dos operadores. Representante do órgão, o engenheiro de Transportes Fernando Mac Dowel explica que o sistema ferroviário difere do metroviário por ser menos seguro. Para o especialista, a informatização do metrô do Rio impede que haja colisão dos vagões. “Os computadores comandam todas as operações. O metrô do Rio tem a posição de cada composição na tela do computador. O sistema é tão sofisticado que foi projetado para andar com intervalo de 90 segundos entre cada trem com distância segura entre eles. Não há margem para erro, como ocorreu nesse acidente do ramal que leva à Baixada”, diz o engenheiro.
De acordo com a SuperVia, a substituição integral do sistema manual pelo eletrônico — considerado por especialistas muito mais seguro — é um processo de longo prazo. Mas que faz parte dos planos da concessionária para melhorar o monitoramento dos 167 trens da frota que circulam nos seus 225 quilômetros de malha ferroviária.
O laudo preliminar da SuperVia sobre as causas do acidente ficará pronto no dia 9 de setembro. Funcionários da empresa e passageiros que estavam no trem serão ouvidos pela polícia nos próximos dias.
MOVIMENTO CRESCE 15% A CADA ANO
A estação de Austin, na Baixada Fluminense, onde ocorreu o acidente na quinta-feira, recebe mais de 15 mil passageiros todos os dias. Ela fica no ramal de Japeri — considerado um dos principais da concessionária —, a 44 quilômetros da Central do Brasil, no Rio, de onde havia partido um dos trens envolvidos na tragédia. Por esse ramal circulam diariamente 200 mil usuários.
De acordo com dados da SuperVia, o movimento de passageiros nas composições vem crescendo, em média, 15% ao ano. Atualmente, mais de 450 mil passageiros elegem o trem como seu principal meio de transporte.
Para transportar tanta gente, o número de viagens necessárias é cada vez maior — o que aumenta o risco de acidentes ao longo dos 225 quilômetros de malha ferroviária.
Na tentativa de reduzir os impactos de acidentes ocorridos na via, a concessionária instituiu um plano de contingência que é acionado sempre que há registros de ocorrências. Nesses casos, os funcionários chegam a ser submetidos a vários testes, entre eles o de bafômetro. Exames médicos e psicológicos também fazem parte da cartilha de prevenção e investigação dos acidentes.
Considerados experientes pelo presidente da SuperVia, Amin Murad, os maquinistas que operavam as duas composições que se chocaram foram internados. De acordo com o delegado Fábio Pacífico, eles serão chamados para prestar depoimento assim que tiverem alta do hospital.