Daniela Dariano e Élcio Braga
Rio - Muito além das brincadeiras de polícia e ladrão de gerações anteriores, dezenas de vídeos caseiros dirigidos e encenados por jovens propagam no site YouTube cenas de tortura inspiradas no filme ‘Tropa de Elite’.
Saco plástico na cabeça do “inimigo” virou lugar comum em diversos dos filmes postados. Cabos de vassoura ou armas de chumbinho são empunhados por jovens como se fossem fuzis. A brincadeira é depois exposta na Internet. Titular da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática, Antenor Júnior analisará os vídeos e, se houver indício de crime, abrirá inquérito.
Como noticiou O DIA sexta-feira, crianças de 6 a 10 anos brincam de ‘Tropa de Elite’ durante o período escolar, imitando cenas de violência do Capitão Nascimento, papel de Wagner Moura. Um dos vídeos do YouTube chama-se ‘Tropa na Escola’ e é encenado por adolescentes em sala que pode ser de colégio.
TAPAS E CHUTES
Os filmes incluem trajes semelhantes aos do Batalhão de Operações Especiais (Bope) — alguns têm a sigla em camisetas pretas —, expressões usadas no filme e funks sobre o Bope, com gargalhadas macabras anunciando a chegada de PMs torturadores. As brincadeiras vão de tapas e água na cara a chutes e simulação de linchamento.
Presidente da ONG Tortura Nunca Mais, a psicóloga Cecília Coimbra vê nesses vídeos o efeito perverso de ‘Tropa’. “O filme prega a violência estatal e fortalece o fascismo social. Uma coisa é a intenção do diretor; outra, o efeito da obra. É preocupante ver jovens de classe média fazendo isso. Eles ocuparão cargos importantes no País e acharão que, de vez em quando, é válido torturar e exterminar”, reflete.
Diretor do filme, José Padilha não vê problema nas simulações. “Cada um faz o vídeo que quer”, disse, mas ponderou sobre casos de crianças reproduzirem trechos da obra. “Criança não tem que ver filme proibido para menores.”
A psicanalista Vera Márcia Ramos diz que os vídeos são sintoma de sociedade adoecida, dominada por violência. E a exposição dos filmes na Internet seria só reflexo de característica da faixa etária — o exibicionismo — em ferramenta atual.
O professor de Sociologia Jurídica da Uerj, Geraldo Tadeu, concorda. “É natural que os jovens dramatizem essa realidade como forma de lidar com a violência atual. Meninos sempre brincaram de polícia e bandido”. Segundo ele, a violência sempre exerceu fascínio. “O mais grave hoje é que não se usa a violência como meio de manter a ordem, mas de abusar e humilhar”.
Em um mês, encenações se multiplicaram
Os vídeos se propagaram com velocidade pela Internet. Há um mês, o ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, um dos autores do livro ‘Elite da Tropa’ — em que se baseia o filme, do qual também é roteirista — viu só um disponível no Youtube. “Um rapaz simulou tortura com a namorada. Achei de muito mau gosto”, opinou ele, que participou ontem de mesa redonda sobre o filme na Escola Superior de Propaganda e Marketing, no Centro.
O evento contou também com os co-autores do livro, o sociólogo Luiz Eduardo Soares e o major PM André Batista, e o diretor José Padilha. Em duas horas, falaram sobre os impactos causado pelo longa. “É natural que jovens brinquem assim. Na infância, eu brincava de bandido e mocinho. O fato de brincar com algo tão sério como a tortura pode ser perigoso por banalizá-la. No entanto, pode estar enfatizando prática que se abomina”, alegou Luiz Eduardo.
Rodrigo comentou reportagem de O DIA sobre crianças repetirem as cenas na escola. “O filme é proibido a menores de 16. Mesmo assim, vi pais discutirem na porta do cinema para o filho pequeno entrar”, diz.
Outro tema abordado foi a descriminalização das drogas. Estudantes lembraram a cena em que Matias critica colegas por colaborar com o tráfico ao consumir entorpecente. Uma aluna disse que se deixou de discutir a questão com profundidade. “No contexto do Brasil, o usuário financia o crime. Não foi meu objetivo apontar soluções”, defendeu-se Padilha.
DICAS: COMO TRATAR O TEMA
Especialistas apontam como os pais devem abordar a violência na ficção
Se o jovem estiver se identificando com a figura do policial agressor, a sugestão para os pais é rever a própria opinião sobre o tema. Os filhos podem imitar pais que demonstram agressividade e desejo de vingança em relação à criminalidade.
Os pais devem priorizar o diálogo com seus filhos e mostrar que não é desejável uma sociedade que adote a violência como forma de resolver conflitos.
Lembre que o filme é indicado para maiores de 16 anos. O próprio roteirista do filme, Rodrigo Pimentel, não deixou o seu filho de 7 anos assistir ao filme, embora muitos de seus coleguinhas já tenham visto.
Alerte seus filhos para os riscos de algumas brincadeiras, como a do saco plástico na cabeça, que se tornou popular na Internet.