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11/10/2007 01:36:00

Carta para chefões do pó

Depois da apreensão de documento, secretário de Segurança exige que líderes do tráfico fiquem fora do Rio

Bartolomeu Brito e Paula Sarapu

Rio - Os planos dos 12 chefões do tráfico presos na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR) de voltar ao Rio estão ameaçados por uma carta descoberta ontem pelo 3º BPM (Méier) na Favela do Jacarezinho. Encontrada ao lado de 300 quilos de maconha, a correspondência de oito páginas, que foi endereçada aos traficantes da cúpula do Comando Vermelho (CV), traz a contabilidade de agosto da facção criminosa e planos de ações, como um ataque a Vigário Geral. Com base na apreensão, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, vai reiterar o pedido ao Ministério Público para que os criminosos permaneçam fora do estado.

“A carta mostra por quais caminhos esta organização criminosa está seguindo. O conteúdo é asqueroso, uma afronta. Eles não são bem-vindos aqui no Rio de Janeiro”, afirmou Beltrame. Além da 25ª DP (Engenho Novo), o documento será investigado pela Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) e Polícia Federal (PF). O titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF, Victor César Santos, já começou a analisar o material.

SEM RESISTÊNCIA

Os PMs encontraram a carta e 207 tabletes de maconha prensada, além de dois revólveres, em uma casa na Rua Darci Vargas, na localidade do Pontilhão. “Sabíamos onde estava guardada a droga. Fomos lá com grupo forte e um blindado, mas não houve reação”, contou o tenente-coronel Marcos Alexandre, comandante do 3º BPM.

Com data de 1º de setembro e assinada pelo 1º CVRL (Comando Vermelho Rogério Lengruber), a correspondência lista 50 favelas do Rio, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Baixada Fluminense que contribuem com a ‘caixinha’ da facção. Pela contabilidade, foram arrecadados R$ 350.916 em agosto. O destino do dinheiro seria compra de armas, munição e drogas, além de ajuda a famílias de bandidos presos. Beltrame permitiu a divulgação apenas de parte da carta.

Na primeira página, o bandido que escreve o documento explica a importância de retomar o controle de Vigário e deixa claro que a ordem de ataque partiu do presídio no Paraná: “Venho passar para os amigos em geral que nós mandamos um toque em Catanduvas, e os amigos mandaram a caixinha se empenhar com tudo na guerra de V.G. (Vigário Geral) e é isso que estamos fazendo, tudo que estamos comprando vai ser para o uso dessa missão. Pois lá foi o berço de muitos amigos e não vamos perder aquilo lá assim”. O traficante agradece aos “amigos que estão fortalecendo com amigos e com peças para que possamos vencer esta guerra”.

Dia 4 de setembro, bandidos recrutados em diversas favelas dominadas pelo CV atacaram Vigário. Houve intenso tiroteio, que deixou pelo menos três mortos e seis feridos. A invasão foi coordenada por telefone por Roseli dos Santos Costa, a Rose Peituda, presa uma semana depois.

Os traficantes presos em Catanduvas são: Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP; Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco; Isaías Costa Rodrigues, o Isaías do Borel; Márcio José Guimarães, o Tchaca; Márcio Cândido da Silva, o Porca Russa; Ricardo Chaves de Castro Lima, o Fu; Charles da Silva Batista, o Charles do Lixão; Cláudio José Fontarigo, o Claudinho da Mineira; Leonardo Marques da Silva, o Sapinho; Marco Antônio Pereira Firmino da Silva, o My Thor; Marcus Vinicius da Silva, o Lambari; e Robson André da Silva, o Robinho Pinga, único de fora do CV.

JACAREZINHO LIDERA PAGAMENTO DE ‘CAIXINHA’

As páginas divulgadas pela polícia mostram que o Jacarezinho foi a favela que mais contribuiu com a ‘caixinha’ — R$ 30 mil —, seguida de comunidade que tem a inicial P.H., com R$ 18 mil. O Morro Dona Marta e a Ladeira dos Tabajaras deram juntos R$ 12.500 e a Mangueira, R$ 8 mil.

Trechos não liberados pelo secretário de Segurança mostram a relação das favelas e dos traficantes em débito com o Comando Vermelho. Há ainda informações sobre honorários pagos a advogados e seu nomes.

Segundo policiais, em um dos trechos não divulgados, bandidos se mostram preocupados com a situação do Morro Camarista Méier, entre o Méier e a Água Santa, tomado por milícia. Os traficantes citam que é necessário comprar armas para “fortalecer” os “irmãos” que foram expulsos.

Duas cartas semelhantes foram apreendidas no início do ano no Complexo do Alemão. Em ambas, a letra era idêntica à encontrada no Jacarezinho.

À noite, quatro homens morreram na Cidade Alta, Cordovil, em confronto com PMs do 16º BPM (Olaria).

AS CARTAS

Parte da carta lista favelas que contribuíram com ‘caixinha’ do CV. Jacarezinho lidera colaborações com R$ 30 mil



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