Rio - Considerado pela polícia um dos maiores traficantes de ecstasy do Rio, Carlos Domingos Moreira Passo Júnior, o Carlão, 36 anos, apostava na conversa envolvente para atrair sua clientela. Trunfo dos melhores para quem tinha como atividade o comércio de drogas para jovens. Ontem, ao falar pela primeira vez sobre o assunto desde que foi preso, ele confessou que usava da popularidade para ampliar os negócios na Barra da Tijuca, mas disse que nem sempre foi assim. Há quatro anos, quando já tinha na ficha criminal uma prisão por estelionato e pelo menos 10 ocorrências por agressão, tentou mudar de vida tornando-se evangélico. Tatuou o nome da Igreja Sara Nossa Terra no tórax e garante ter convertido a família e uns 200 amigos.
“Nesta fase calma pensava como havia sido louco: fumava maconha para comer, para dormir, para dirigir, para respirar”, contou ele, que foi transferido ontem para a Polinter do Grajaú. A mudança durou menos de um ano, com o término do segundo casamento. “Leio a Bíblia até hoje. Sou violento, mas com quem é comigo.”
Usuário confesso de drogas, Carlão encarregava-se de ser o garoto propaganda do negócio: relata que exibia corpo sarado, namoradas e coleção de amigos que incluía herdeiros afortunados da Zona Sul e personalidades. Ponto de encontro, sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, completava o cenário deslumbrante que cercava o traficante.
“Sei que meus vizinhos fizeram abaixo-assinado no início do ano para que eu me mudasse. Não agüentavam o som, a movimentação de pessoas. Ignorei. Disse que só saía com ordem judicial. Não pararia as festas. Ganhava dinheiro de R$ 7 mil a R$ 10 mil”, comentou.
TRABALHO COM O PAI
Carlão conta que trabalhou na juventude nos negócios do pai — empresário de 70 anos — e em concessionárias de carros importados. Ele cursou até o sétimo período de Direito. Largou a faculdade para ir morar nos EUA. Não viajou e, empolgado pela religião, começou a estudar Teologia.
“Criou-se um mito em cima de mim. O que a polícia diz que eu fiz (ele foi filmado vendendo ecstasy em raves) tem um monte de gente que faz. Em rave, o normal é levar no bolso umas 10 ou 15 balas, usar umas três e revender o resto. Todo mundo faz isso. Traficante não fica em festa”, garante.
‘Pai, pára de fumar maconha’
Vida regada a drogas, pontuada por raros momentos de reflexão, motivados pelo filho de 13 anos. “Fiquei sabendo que ele chorou muito quando viu minha foto no jornal. Não queria expor o moleque. Não quero para ele a vida que tive. Ele sempre diz: ‘Pai, pára de fumar maconha e vai trabalhar numa parada maneira, legal’. Meu pai foi hospitalizado”, comentou Carlão.
A prisão de Carlão motivou dezenas de ligações para a 16ª DP (Barra), de supostas vítimas de agressões cometidas por ele. Apesar de confirmar a fama de agressivo, Carlão disse que age em legítima defesa. “Em 1997, na Praia da Barra, fui agredido por um cara que me deu três tiros. Peguei a arma dele e revidei. Sou polêmico e meus amigos dizem que minha vida merece um livro.”