São Paulo - São Paulo está sob novo estado de terror da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Ontem, outro agente penitenciário foi atacado a tiros por bandidos. Foi o sexto atentado contra agentes em oito dias, num total de cinco mortes. O clima de tensão também voltou a ficar acirrado nos presídios. A Tropa de Choque da PM invadiu duas penitenciárias ontem para evitar rebeliões — em uma achou estiletes e na outra, buracos em 18 celas. O medo nas cadeias é reforçado pelo caos, como no Centro de Detenção Provisória de Araraquara, onde um preso, o cirurgião plástico Hosmany Ramos, está usando seus conhecimentos médicos para socorrer colegas, amontoados e confinados em unidade que teve a porta selada a solda após motim.
O agente penitenciário atacado ontem foi Ângelo Rodrigo Batista Martins, 28 anos, baleado quando chegava em casa, no bairro da Liberdade, região central da capital, à 1h. Funcionário do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros, ele foi atingido por oito tiros nas costas. Mesmo ferido, conseguiu andar até prédio próximo e pedir ajuda. A vítima foi levada para o Hospital do Servidor Público Municipal e seu estado é grave.
Aterrorizados com a situação, 10 agentes já abandonaram suas casas após receber ameaças de morte do PCC. As intimidações teriam ocorrido no horário de trabalho e foram feitas por criminosos que foram às residências das vítimas, onde deixaram recados, ou por meio de bilhetes e telefonemas.
PARALISAÇÃO
Em protesto contra o assassinato dos colegas, cerca de 4,5 mil agentes penitenciários de 22 presídios do Estado de São Paulo cruzaram os braços ontem. O luto começou após a morte, na quarta-feira, de um agente de escolta. Ele não sofreu ataque a tiros. Morreu durante fuga de presos da Penitenciária de Franco da Rocha. A paralisação reúne agentes dos três sindicatos da categoria, que decidiram fazer em conjunto uma greve de 24 horas para cada execução de agente.
O temor de que onda de rebeliões volte a assolar as cadeias levou a Tropa de Choque da PM a invadir duas prisões ontem. Na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde estão 532 líderes de motins e do PCC, os policiais entraram após denúncia de que os internos estariam planejando se rebelar usando os colegas como reféns. Foram apreendidos 20 estiletes, que seriam usados no motim. Na Penitenciária 1 de Mirandópolis, os PMs encontraram buracos em 18 celas, que foram lacradas, e três celulares.
Preso opera colegas de cela
Famoso cirurgião plástico da equipe de Ivo Pitanguy na década de 70, Hosmany Ramos, que está preso desde os anos 80 por série de crimes, voltou a exercer sua profissão para tentar contornar o caos que se instalou no CDP de Araraquara desde 16 de junho, quando a porta da unidade foi selada a solda pelos agentes penitenciários após rebelião. Entrada e saída de detentos, assim como das refeições, são feitas pelo teto, por grade. Sem luz, os 1,6 mil internos tentam sobreviver num espaço construído para 160, enquanto doenças se proliferam com as péssimas condições.
“Já operei no mínimo 80 detentos. Muitas das cirurgias foram para extrair balas. Apliquei mais Benzetacil (antibiótico) nos últimos dois dias do que em 12 anos de hospital quando era livre”, relatou ontem Hosmany, em entrevista por celular usado pelos internos.
Hosmany começou a fazer os atendimentos quando o médico do CDP se recusou a entrar na prisão. Também pelo teto, os agentes passaram a fornecer, então, antibióticos, xaropes, linhas cirúrgicas, agulhas de sutura, pinças, gaze e pomadas. O material, porém, nem sempre é suficiente. “Às vezes, tenho que improvisar: uso fita crepe em vez de esparadrapo; prego e sapato para tentar arrancar dente”, conta.