Jorge Carrasco, Pâmela Oliveira, Isabela Kassow (fotos)
Rio - Laura*, 35 anos, levou pauladas de traficantes numa comunidade da Zona Norte do Rio; Fátima, 43, chora ao lembrar que a filha Kátia, 20, foi surrada e ameaçada numa favela do Centro; Agnaldo, 42, foi expulso de uma comunidade em Vitória da Conquista, na Bahia, e espancado em Minas Gerais.
O que essas vítimas têm em comum? Todas estão "pegadas", ou seja, são portadoras do vírus da Aids, na gíria das favelas, e tiveram de abandonar suas casas. De acordo com médicos e líderes de Organizações Não-Governamentais, agressões e a expulsão de pessoas com HIV em favelas do Rio e outros estados são comuns.
"Temos relatos desses casos. Também sabemos que nos Centros de Testagem Anônima (CTAs) mulheres fazem o teste e, na hora que pegam o resultado, têm de entregá-lo a pessoas que são ligadas ao tráfico. Muitas tentam esconder que são soropositivas com medo de ser expulsas", conta o presidente do Fórum Estadual de ONGs de HIV/Aids do Rio, Roberto Pereira.
Traumatizadas com os atos de crueldade, muitas vítimas precisam contar com o apoio de amigos e geralmente abandonam o tratamento temendo ser novamente descobertas. Foi o que aconteceu com Laura.
"Eu vi a morte quando colocaram a arma na minha testa e falaram: ‘Menos uma aidética no mundo’. Eles me espancaram com paus e exigiram que saísse de lá. Eu não podia fazer nada porque eram cerca de 15 pessoas, entre traficantes e vizinhos", conta Laura, expulsa há mais de dois anos.
Fragilizadas e apavoradas, as vítimas não denunciam os crimes. O Ministério da Saúde, que estima que 600 mil pessoas vivam com o vírus HIV no País, reconhece o problema. "A dificuldade é fazer com que esses casos cheguem até nós e sejam documentados. Para isso, implantamos 47 assessorias jurídicas de apoio a pessoas com HIV/Aids. No início da epidemia, soropositivos eram até apedrejados", diz o responsável pela Sociedade Civil e Direitos Humanos do Programa Nacional de DST e Aids, Eduardo Barbosa.
Agressões aos doentes não acontecem só no Brasil. Segundo o diretor de Iniciativas Globais do Programa de Aids das Organizações das Nações Unidas (Unaids), Luiz Loures, há registros em outros países. "Isso é até comum na América Latina. Na República Dominicana e na Argentina, há muitos casos assim. E aumentou o número de argentinos que buscam apoio jurídico por causa desse tipo de discriminação", informa ele.
A crueldade contra portadores de HIV/Aids será justamente tema de discussão na XVI Conferência Internacional de Aids, que acontece de hoje a sexta-feira, em Toronto, Canadá. O evento reunirá representantes governamentais e os principais órgãos internacionais.
‘TENHO MARCAS NO CORPO’
"Já fui ameaçado mais de uma vez depois que descobri que tinha HIV. Sinto medo na rua, pois podem desconfiar que tenho a doença. Não conto isso para mais ninguém. Na época, quando morava num albergue próximo a uma favela do interior de Minas, criminosos da comunidade souberam que eu era soropositivo e me espancaram. Disseram que eu ia contaminar todos na favela. Apanhei muito, minha mão ficou tão inchada que precisaram cortar meus anéis. Não me mataram porque eu fugi e pedi ajuda numa igreja. Tenho marcas pelo corpo. Voltei fugido para Recife. Estou sozinho porque as pessoas me discriminaram por causa da doença."
Peregrinação por segurança
Com HIV diagnosticado há dois anos, o cabeleireiro Agnaldo já percorreu mais de 3 mil km em cinco estados à procura de um lugar seguro para morar. Em dois estados, foi ameaçado.
"Saí de Recife porque minha família me tratava com indiferença. Já andei muito procurando um lugar em que eu me sentisse em paz. Em março, no interior da Bahia, cheguei a morar com amigos num posto de gasolina, onde fui ameaçado por vizinhos que souberam que tenho Aids. Eles falaram que iam me matar porque tinham medo do contágio."
Ele passou por Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, até chegar ao Rio, onde ocupa vaga num abrigo.