Rio - Um carro destroçado, pais desesperados e corpos no canteiro divisório da Avenida Borges de Medeiros. Assim terminou o embalo de fim de semana de cinco jovens, pela manhã, na Lagoa, depois de deixarem a boate Sky Lounge. Foram exatos 1.800 metros em alta velocidade até a violenta colisão contra uma árvore. A cena comovia aos demais pais que passavam pelo local e refletiam sobre os horrores a que seus filhos estão sujeitos na noite carioca.
Manoela de Billy Rocha, 16 anos; Ana Clara Rocha Padilla, 17; Felipe Travassos de Azevedo Vilela, 22, e Ivan Rocha Guida, 19, morreram no local. Joana Kuo Chamis, 17, chegou a ser socorrida em estado gravíssimo no Hospital Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu. Segundo amigos, todos haviam bebido.
Ivan perdeu o controle do Honda Civic preto, placa LOW 5506, na pista sentido Túnel Rebouças, logo após uma curva. Às 5h40, o veículo, desgovernado, percorreu quase 50 metros, bateu no meio fio, subiu no acostamento, passou sobre um arbusto, chocou a lateral contra uma árvore e parou destruído.Uma lata de tinta branca, que estava no porta-malas, foi arremessada até o outro lado da rua, na porta da sede náutica do Vasco.
O carro começou a pegar fogo. O DJ Anderson Ferreira Calvet Corrêa, 28 anos, que saia de formatura, ajudou a apagar o fogo com extintor pego no Vasco. Ele ainda conversou com Manoela. “Cheguei a falar com ela enquanto chamava os bombeiros. Ela perguntava o que tinha acontecido. Disse que estava chamando ajuda, para ficar calma”, contou.
O tio de Manoela, que se identificou apenas como Tito, disse que a jovem morava no Humaitá e costumava sair com as outras meninas. Os pais, que também não quiseram se identificar, foram os primeiros a chegar. A mãe da menina passou alguns minutos falando com o corpo da filha. Por volta das 8h30, o padre Lúcio Veleda, 77, pároco da igreja de São José, na Lagoa, benzeu os corpos no local. “A juventude se entusiasma e ignora os perigos”, disse.
O tio de Felipe, Geraldo de Azevedo, lamentou a imprudência. “Jovens acham que são indestrutíveis e que com eles nunca acontecerá nada. Mas a vida acaba num estalar de dedos”, lamentou ele, que se esforçava para cobrir com lençol curto o corpo desfigurado do rapaz.
Carro mata 50 jovens por mês no Rio
Acidentes de trânsito são a principal causa da morte prematura de jovens no Rio. De acordo o Corpo de Bombeiros do Estado, 50 rapazes e moças com idades entre 13 e 29 anos morrem todo mês em desastres semelhantes ao ocorrido na Lagoa. O número representa 40% do total de vítimas de acidentes que, em 2005, chegou a 600. Ao todo, 1.500 pessoas perderam a vida no trânsito do Rio, 90% a mais do que os 800 óbitos registrados cinco anos antes.
Presidente da 3ª Junta Administrativa de Recursos de Infrações do Detran do Rio, o tenente-coronel Milton Corrêa destaca que a principal causa dos acidentes que matam jovens é “a mistura perigosa de bebidas alcóolicas e alta velocidade, o que se observa principalmente nos fins de semana”.
Pesquisa do IBGE revela que 540 mil jovens com idades entre 15 e 24 anos morreram de causas não-naturais entre 1980 e 2000, data do último censo. Os acidentes de trânsito aparecem como os responsáveis por 25% desse total. Nessa estatística, estão colisões como a que envolveu o jogador de futebol Edmundo em 1995, quando três jovens morreram também na Lagoa.
A legislação tenta reverter o quadro, mas não consegue. Sancionada este ano, lei que obrigava envolvido em acidente a fazer teste do bafômetro foi considerada inconstitucional por ferir princípio segundo o qual ninguém é obrigado a produzir prova contra si próprio.