Rio - Durante mais de 10 horas, o biscateiro André Luiz Ribeiro, 38 anos, transtornado pelo ciúme, manteve a ex-mulher e passageiros como reféns em ônibus da linha 499 (Cabuçu-Central), seqüestrado com cerca de 50 pessoas na Via Dutra, em Nova Iguaçu, às 8h de ontem. Cristina Ribeiro, 37, ficou sob a mira de um revólver e foi espancada pelo ex-marido, que, enfurecido, se dizia traído. Depois de negociações tensas, André se entregou às 18h25. Cristina foi levada para o Hospital da Posse, em Nova Iguaçu com escoriações no rosto, pescoço e pernas e abalada emocionalmente.
O motorista do veículo, Flávio Teles de Menezes, 45 anos, contou que, ao chegar ao bairro Rosa-dos-Ventos, André entrou nervoso no ônibus pela porta da frente, empurrando Cristina. "Não pára", gritou o biscateiro para o motorista. Houve gritaria e muitos passaram mal.
Poucos metros à frente, patrulha da PM passou a perseguir o ônibus e, perto do Centro de Nova Iguaçu, tentou bloqueá-lo. André forçou Flávio a desviar e furar o bloqueio. Na Via Dutra, o motorista pegou a pista principal, acreditando que haveria congestionamento e seria mais fácil para a polícia fazer novo bloqueio, que foi feito no Km 176, da pista sentido Rio. Uma carreta ficou ao lado do veículo para facilitar as negociações.
André permitiu que cerca de 15 pessoas que se sentiam mal deixassem o ônibus. O motorista aproveitou o momento em que o seqüestrador passou pela roleta para escapar pela porta da frente. Às 9h20, o 499 — guiado por um cobrador de outra empresa, que pegava carona — foi escoltado pela polícia até a pista marginal, no Km 174.
O passageiro Fábio dos Santos Silva, 25 anos, lembrou que André batia na mulher, dizia que têm três filhos, que é trabalhador e fora enganado por ela. Um dos primeiros passageiros a ser liberado, José Ivair, 49, contou que quando alguém defendia Cristina, André ficava enfurecido. Durante as negociações, funcionário da empresa desligou o ar condicionado, travou a porta e esvaziou os pneus dianteiros.
Religiosos e parentes de André e Cristina, que são primos e terminaram casamento de 10 anos em junho, foram chamados para tentar convencer o seqüestrador a se render, depois que o comandante geral da PM, Hudson de Aguiar, fracassou na tentativa. A mãe de André passou mal. André foi libertando os passageiros, que mesmo abalados foram encaminhados para a 52ª DP (Nova Iguaçu).
Rendição com entrega de arma
Durante as negociações — lideradas por major e capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), com o cobrador do ônibus como interlocutor —, o seqüestrador hesitava em se render por medo de represália. Às 18h25, cansado, André decidiu entregar pela janela a arma ao major Soares. Na ocasião, havia sete pessoas no 499. Cinco homens do Bope entraram no veículo, libertaram os reféns e levaram o biscateiro à 52ª DP (Nova Iguaçu). Aos prantos, Cristina saiu logo depois.
Além da PM, o Ministério Público ajudou na negociação. "Não houve sangue, resolvemos a situação com paz", comemorou o coronel Hudson de Aguiar, comandante da PM. O Bope chegou a ensaiar uma possível invasão por duas horas em ônibus idêntico ao seqüestrado.
Disparo de revólver às 16h20 foi o momento de maior tensão. Para alívio de todos, um dos reféns sinalizou que André havia atirado para o chão. Ele teria reagido a gritos de ‘corno’ de ocupantes de um ônibus que passava pelo local.