Rio - Em meio a dezenas de policiais armados e especialistas em negociação de seqüestros, foram as palavras calmas do cobrador do ônibus, Luiz Carlos Ferreira da Silva, que impediram um desfecho trágico. Refém, Luiz foi o herói do dia, colocando-se à disposição da polícia para negociar com André.
Luiz telefonou para o motorista Flávio Teles Menezes e pediu que ele desse o número de seu celular à polícia. A negociação começou por volta das 9h. O cobrador ouvia as instruções de policiais e informava a situação dentro do veículo. Depois de horas de conversa, ganhou a confiança do seqüestrador, conseguindo que ele falasse direto com a polícia.
O trocador usou a experiência adquirida em quatro assaltos — sofridos ao longo dos oito anos de trabalho na Viação Tinguá — para acalmar o seqüestrador e impedir que tentasse o suicídio. “O momento mais tenso foi por volta das 16h, quando ele chorou muito e colocou a arma na cabeça, arrependido. Eu disse: ‘Não faça isso, você tem a vida inteira pela frente. Tenha fé em Jesus’. Senti pena dele”, contou Luiz, a salvo, na delegacia. Pouco depois, a arma disparou no chão do ônibus. Descontrolado, André pediu desculpas aos passageiros.
AMIZADE INSÓLITA
Ao perceber que o seqüestrador não tinha intenção de machucar os reféns, o cobrador sentiu-se mais seguro. “Posso dizer que ficamos amigos. Entendo a situação: ele estava transtornado e deprimido. Eu disse que ele não poderia se destruir por um momento difícil. Eu o perdôo pelos momentos de tensão que passamos.”
Além do cobrador e dos negociadores do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o pastor Marcos Pereira e o ex-pagodeiro Waguinho, membro da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, conversaram com André por 10 minutos. Eles conseguiram convencer o seqüestrador a se entregar, mas, ao ver a mãe chegando, ele recuou.
Às 4h da madrugada de sexta-feira, quando saiu de sua casa, no bairro Corumbá, para começar o expediente no 499, Luiz não imaginava que ajudaria a salvar dezenas de vidas. Pai de dois filhos, ele ainda conseguiu tranqüilizar a filha de 10 anos pelo celular: “Papai está bem. Estou ajudando aqui, mas já vou para casa”. Fora do ônibus, humilde, ele atribuiu o final feliz à participação dos passageiros e policiais. “Todos contribuíram. Não sou herói, apenas ajudei alguém que precisava”, avaliou.
Promotor ajudou na negociação
Junto com o negociador do Bope, o capitão Uirá do Nascimento, um dos responsáveis pelo fim do seqüestro foi o promotor da 3ª Central de Inquéritos da Baixada, Carlos Guilherme Santos Machado, 34 anos. Para convencer André a se entregar, foram quase cinco horas, quando recebeu a arma pela janela. Na opinião dele, entretanto, o caso em questão não caracteriza um seqüestro. “Houve constrangimento ilegal. Seqüestro é levar a vítima a um local isolado,sem comunicação. No meu ponto de vista, não houve isso. Ele a obrigou a entrar no ônibus, mas gritou logo: ‘Não tenho nada contra ninguém, meu negócio é com ela. Quem quiser sair, saia’. As pessoas só não saíram em solidariedade a ele, temendo que se matasse”, afirmou.