Rio - Nova Iguaçu - município em que ocorreu, sexta-feira, o seqüestro do ônibus 499 por um ex-marido louco de ciúme - lidera o ranking de violência contra a mulher do estado, segundo estudo do Instituto de Pesquisa de Segurança Pública (ISP), referente ao ano de 2005.
Por 10 horas, o biscateiro André Luiz Ribeiro, 38 anos, manteve a ex-mulher, Cristina Ribeiro, 37, e outros passageiros como reféns no veículo da linha Cabuçu-Central na Via Dutra. A mulher ficou sob a mira de revólver e foi espancada pelo ex-marido, que, enfurecido, se dizia traído. Após negociações tensas, André se entregou.
Depois de Nova Iguaçu e outras localidades da Baixada Fluminense, vêm, no ranking da covardia, distritos de São Gonçalo e bairros do subúrbio da capital. Os principais crimes analisados na pesquisa foram atentado violento ao pudor, estupro e lesão corporal dolosa (agressão intencional).
A maioria das vítimas é solteira e branca. Nas ocorrências de lesão corporal - crime mais praticado contra as mulheres no estado -, elas têm entre 18 e 34 anos de idade. Sexta-feira, dia do seqüestro, o ISP divulgou estatística comparando os principais delitos em que o agressor mantinha, ou manteve, relacionamento amoroso com a vítima. No primeiro semestre de 2006, os crimes de homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, lesão corporal dolosa e ameaça diminuíram no estado em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2006, foram praticados 25 homicídios contra 26 em 2005. Outro exemplo é a ameaça. Até junho de 2006, 8.817 mulheres foram ameaçadas por companheiros ou ex-companheiros. Já no primeiro semestre de 2005, esse número foi de 9.158, mostrando queda de 3,7%.
VÍTIMA PERDOA EX-MARIDO
Apesar das 10 horas de terror que passou em poder do ex-marido, Cristina, que foi espancada e ficou sob a mira de uma arma, perdoou André. Em conversa com a irmã dele, Rosimary Maria da Silva Costa, de 46 anos, momentos antes de ser atendida no Hospital da Posse, sexta-feira, a técnica de enfermagem disse ter desculpado o biscateiro porque acredita que ele devia estar desesperado. "Durante o seqüestro, Cristina contou que abraçou meu irmão e pediu para ele parar com aquilo tudo", afirmou Rosimary.
De André, na visita que fez a ele na carceragem da 52ª DP (Nova Iguaçu), Rosimary ouviu relato de arrependimento. "Ele chorava compulsivamente, falava como se arrependia e perguntava como Cristina e os três filhos estavam. Disse que passaria a noite conversando com Deus. Me senti aliviada ao saber que se arrependeu", disse ela. "Os dois foram casados por 10 anos e há seis meses se separaram por causa de brigas. Mas ainda se amam. Desconheço qualquer namorado que Cristina tenha tido nesse período", completou.
O 499 foi seqüestrado com cerca de 50 pessoas na Via Dutra, Nova Iguaçu, às 8h de sexta-feira. Assim que André entrou no ônibus com Cristina, saiu empurrando a ex-mulher com revólver na cabeça. Houve gritaria e pânico. Aterrorizados, reféns ligaram para parentes por celulares. Depois de negociações tensas, mediadas com a ajuda do trocador do veículo, o biscateiro se rendeu às 18h25. Foi nesse horário que ele entregou a arma pela janela e policiais invadiram o 499, prendendo André. Cristina estava com escoriações e muita abalada.
Relações de amor e ódio
O número de crimes de violência contra mulheres em que não existe relação amorosa entre agressor e vítima apresenta índices bem menores, segundo estatísticas do ISP. Dos delitos de lesão corporal dolosa registrados no primeiro semestre de 2005, em 23.998 havia relacionamento entre autor e vítima, contra 1.181 em que não havia ligação.
No mesmo período deste ano, o comportamento se confirma. Foram 24.176 registros onde os envolvidos eram íntimos, enquanto em 1.820 a vítima era desconhecida do criminoso.
Nos casos de ameaça, a influência da relação também está presente. De janeiro a junho do ano passado, 20.709 mulheres foram vítimas de homens com quem já conviveram. Já 1.027 não conheciam o autor do crime. No primeiro semestre deste ano, houve 20.057 registros contra homens com quem as vítimas se relacionaram e 1.641 em que não existia envolvimento amoroso.