Rio - A Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) vai adotar ações para diminuir o impacto negativo de ‘Turistas’, filme que conta a história de jovens americanos de férias no Brasil. Em passeios, os mochileiros são vítimas de assassinato, roubos e até de caipirinha envenenada. Para promover o longa-metragem — que chega às telas dos Estados Unidos dia 1º de dezembro —, a empresa cinematográfica Fox Atomic criou um guia virtual falso, o site www.paradisebrazil.com, com informações e vídeos bizarros sobre o país, relatos de mortes de estrangeiros e tráfico de órgãos.
A fim de evitar danos por conta do filme, a Embratur montou força-tarefa para monitorar a repercussão. O instituto contará com a empresa de relações públicas Ogvil PR, responsável pelo programa ‘Monitor Brasil’, que promove, no exterior, aspectos positivos do turismo brasileiro. “No momento em que o filme entrar em cartaz, a idéia é mostrar o que é bom no Brasil”, diz a presidente do instituto, Jeanine Pires, que assistiu ao trailer.
Sobre o guia virtual falso, uma peça publicitária do longa-metragem, Jeanine informou que não há como tomar providências. “Teríamos que entrar na questão da legislação da Internet. A empresa que hospeda o site está vinculada às leis americanas, e não às nossas.”
As terríveis notícias contra o Brasil começam logo na página principal do site, que pode enganar turistas estrangeiros distraídos — há discretas referências ao filme ‘Turistas’ na página. Na chamada da web, a frase ‘Hip guide to the wild side of Brazil’, algo como ‘Um guia do lado selvagem do Brasil’. Imagens supostamente em tempo real mostram uma praia brasileira com o corpo de uma mulher assassinada e um homem vestido de preto atacando-a. Ao fundo, trilha sonora com música de roda de capoeira.
Há também links para música com informações sobre bossa nova, rock e a definição deles para o funk carioca. “Tipo de música com sexualidade explícita. É atribuída geralmente aos povos derivados da favela”.
PCC É CITADO
Uma das fotos chocantes é do suposto tráfico de órgãos. Ela mostra corpo sendo dissecado e a frase: “As vítimas são geralmente mulheres, executadas, às vezes, num ato sexual, outras vezes são turistas estrangeiros com mortes inesperadas”.
Para dar mais realidade, o guia virtual tem o mapa do Brasil, dicionário de frases em português e anúncio de uma empresa de ônibus chamada ‘Teco Bus Line’, que faria excursões. O falso guia também cita os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, com o título ‘Gangue violenta’. “O pânico e o medo chegaram à maior cidade...”, relatam.
Índios e mochileiros no filme
Escrito por Michael Ross e dirigido por John Stockwell, ‘Turistas’ tem no cartaz de divulgação a imagem de uma jovem com semblante de medo e a sombra de uma faca em seu rosto. O filme macula a imagem dos índios, colocando-os como parceiros de traficantes de órgãos, e erra ao dizer que a Amazônia fica ao lado do Rio de Janeiro.
A trama, no estilo ‘A Bruxa de Blair’, mostra grupo de belos jovens mochileiros americanos que viaja por praias brasileiras. Eles são vítima de um golpe, em que são embebedados ao estilo ‘Boa Noite Cinderela’, roubados e abandonados numa floresta. Depois, são raptados por criminosos brasileiros que roubam órgãos humanos para vendê-los.
No trailer, uma das atrizes narra problemas enfrentados pelos amigos. Ao fundo, um samba. Há também briga, futebol de areia e meninas de biquini. “Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer”, diz o vídeo. No final, seguindo o clichê, a palavra ‘turistas’ é escrita com sangue. O trailer do filme pode ser visto no www.myspace.com/turistasmovie.
Gravado em locações brasileiras, como Ubatuba, no litoral paulista, o longa é o primeiro do estúdio norte-americano Fox Atomic, criado pela gigante Fox Films. Trata-se de uma divisão da empresa direcionada para o público de 17 a 24 anos.
Na Internet, a página criada para divulgar o filme rende frutos: internautas deixam comentários como “acho que não vou mais pra lá” ou “marquei uma viagem, agora estou preocupado”. Preocupação de sobra para o turismo nacional.
O RIO NADA AMISTOSO DOS SIMPSONS E STONES
Em episódio do seriado ‘Os Simpsons’, de 2002, o Brasil é retratado de forma exagerada na abordagem de temas como violência, sexualidade e pobreza. A polêmica levou o ex-presidente Fernando Henrique a exigir desculpas da Fox e a Riotur, a tentar processá-la.
Há também ‘Bastidores: Rolling Stones em Copacabana’, realizado em fevereiro deste ano. No DVD, a equipe aparece fazendo piadas pela necessidade de segurança, criticando a eficiência dos operários e reclamando do calor e das picadas de mosquito. Ciente dos estereótipos que o cinema mundial apresenta sobre o Brasil, a cineasta Lúcia Murat fez o documentário ‘Olhar Estrangeiro’. Ela entrevistou diretores e atores como Michael Caine, que rodou ‘Feitiço do Rio’ (1984) por aqui. Os depoimentos desvendam o motivo dos clichês sobre o país.
O site do Departamento de Estado Americano é outro que não economiza em sua visão do Brasil e exagera no alerta contra o crime.