Rio - O quartel com o maior número de ‘baixas’ foi o 14º BPM (Bangu), onde, a partir das 9h de sexta-feira, os 40 acusados foram sendo presos, um a um, quando chegavam para trabalhar ou deixavam o plantão noturno. Os homens da Corregedoria da PM foram à unidade acompanhados pelo comandante-geral da corporação, coronel Hudson de Aguiar. Os 39 praças e um tenente são acusados de vender armas apreendidas com bandidos em operações para outros traficantes.
Cerca de 330 militares, divididos em 80 viaturas, participaram da operação, realizada nos cinco batalhões a partir de informações levantadas pela Inteligência da Polícia Federal. Na unidade de Bangu, as equipes tinham em mãos fotos e identidades dos acusados, que foram sendo reconhecidos, alguns ainda no caminho para o trabalho. Resignados, os militares saíam de seus carros sem questionar a ação.
Eles não foram algemados, mas muitos tentaram esconder o rosto da imprensa, usando bonés e entrando rapidamente nos carros descaracterizados, usados para transporte dos presos. Antes de seguir para a sede da Federal, na Praça Mauá, porém, os presos tiveram que entregar suas armas, documentos e até fardas, colocadas em sacos plásticos.
Um cabo e um sargento chegaram a tirar o uniforme na rua do batalhão. A escolta também revistou armários e carros dos policiais, estacionados próximos à unidade. Os mandados de busca e apreensão também foram cumpridos nas casas deles, onde a polícia procurou documentos e materiais que comprovassem a ligação com o tráfico.
Após triagem na Praça Mauá, onde prestaram depoimento, os PMs foram encaminhados ao Batalhão Especial Prisional, em Benfica. Na hora das prisões, ninguém quis falar sobre o caso, nem mesmo o comandante do batalhão, coronel Celso Nogueira — que, horas depois, foi preso pela Federal por envolvimento com outra máfia, a dos caça-níqueis. Ainda de manhã, ele havia sido exonerado por Hudson, como punição pelo fato de seus 40 subordinados estarem ligados ao tráfico.
A unidade tem 600 policiais. Há dois meses, a Corregedoria da PM levantava a identificação dos acusados, a partir de informações passadas pela Federal. Segundo Hudson, a Justiça determinou que a PM ficasse responsável pelas prisões. "Estamos separando o joio do trigo. Vamos expurgar do seio da corporação quem não honra o trabalho e a farda", disse, justificando ainda que a criação da 4ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, em Realengo, para investigação de policiais, se deu pelo fato de a "Zona Oeste ser um problema". Curiosos pararam para ver a movimentação dos carros em frente à unidade de Bangu.
NEGOCIAÇÕES PELO TELEFONE: ‘TÔ COM A METRALHADORA QUE FALEI’
Em conversas gravadas pela PF, PMs são flagrados negociando metralhadora ponto 30, pistolas e propinas. PM chega a oferecer 100 kg de maconha a traficante, que até se assusta com a carga.
PM: Então, dei o papo daquela balinha (munição), aquele produto que seguiu e da 30. Dei o papo da 30.
Bandido: Era pra ter desenrolado hoje lá no QG, tá ligado? Qual fundamento dela?
PM: Se liga, não é esteira não, é carregador...
Bandido: É militar, qual foi?
PM: Negativo. Isso aí vai ter que ver pessoalmente.
Bandido: Já é. Quantos carregadores, sabe não?
PM: Tá com um só.
PM: Olha só, tô com o do 9 (pistola 9 mm), quer?
Bandido: Liga daqui a 3 minutos. Quanto você quer?
PM: Cinco conto (R$ 5 mil) nas duas. Zerado. Carregador de 25 tiros.
PM: Roupa dos de preto...
Bandido: Tudo de preto?
PM: Mas faz o seguinte, vamos desenrolar esse negócio pessoalmente à noite...
Bandido: Boina e tudo?
PM: O que você falar que é a gente pede, filho.
Bandido: É tudo completo, preto, tudo?
PM: Eu vou aí à noite, que não dá para ficar falando essas coisas por telefone.
PM: Tô com a metralhadorazinha que eu te falei.
Bandido: Correto, mas quanto, R$ 3.500?
PM: Pô, não dá não. O amigo tá querendo 4 e meio. Eu chorei pra quatro.
Bandido: Ah, tranqüilo, mas tá muito puxado pra mim, tá muito puxado. Oh, mas R$ 3.500 já é!
PM: Se liga só...
Bandido: Ah, tu sabe que eu sou maior sintonia do c.. Tu vem na sintonia comigo há maior tempão. Quantas armas tu já vendeu pra mim no bagulho, entendeu?! Na época do Jorge Turco, lá, porra. Era uma, duas por semana que tu trazia pra mim...
PM: Pois é, meu cumpádi.
Bandido: Sempre foi camarada, agora tu tá nessa.
PM: Não tô não. É que o bagulho não é só meu. Quero te adiantar p., tu sabe que eu sempre fui de te adiantar. Só que, pô, a parada não é só minha. É 10 cabeça que tá na situação, mano. Eu tenho que ouvir 10 cabeças falar: "Aceito". "Não, não aceito". Vamos fazer o seguinte, a minha é de te adiantar. Bota mais uma quina aí (R$ 500).
Bandido: Ah, tu quer R$ 350 no quilo, né?!
PM: Tô com 100 quilos.
Bandido: 100 quilos, maluco?! C., esculachou!
PM: Olha só. Tô com informação pra c. daí, não quero nem ir aí...
Bandido: Ih, pelo amor de Deus, hein?!
Bandido: Aí fica como? Fica em R$ 1.000, né?!
PM: R$ 1.000 nosso e dos F2, os homens de preto que trabalham com a gente.
Bandido: Do P2?
PM: Isso, isso.
Bandido 1: Coé, tranqüilidade. Vou mandar a peça (arma) e o dinheiro aí...
PM: O amigo aqui tá no sofrimento, o que é que tu tem aí na mão?
Bandido 1: Nós tá só com um conto aqui.
Bandido 2: Coé, irmão. Desce a metralhadora e a pistola aí, irmão. Eu vendo meu carro e pago.
Bandido 1: Não esculacha o menor, não?!
PM: Vê isso rápido, que eu quero as peças (armas) e o dinheiro.