Adriana Cruz
Márcia Brasil
Rio - Os dois ‘capos’ da máfia dos caça-níqueis no Rio — Rogério Andrade e Fernando Iggnácio — desembolsariam em torno de R$ 2 milhões por mês em propinas. A estimativa é de investigadores que participaram da apuração que resultou na Operação Gladiador, em que a Polícia Federal (PF) desvendou esquema de envolvimento de policiais civis e militares, além de um jornalista da TV Globo, com as duas quadrilhas. O ‘mensalão’ serviria para comprar proteção e informações.
A Gladiador teve como base denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 43 envolvidos com os chefões presos. Mas o delegado federal Alessandro Moretti, responsável pelo inquérito, informou que foram identificados pelo menos 200 policiais a serviço da máfia dos caça-níqueis.
Uma das provas da PF é um pen drive (arquivo de computador móvel) apreendido com Rogério. Nele, consta a contabilidade do jogo. Para usar as informações do pen drive, há três semanas a PF pediu autorização à 1ª Vara Criminal de Bangu. O material é peça de inquérito contra Rogério na Justiça estadual, em que ele foi denunciado com outros 30 homens por formação de quadrilha armada.
Delegacias loteadas
Investigações da PF revelam que para facilitar a ação do bando de Rogério, policiais civis — conhecidos como ‘primos’ ou ‘inhos’, devido à terminação de seus apelidos — indicavam delegados titulares para comandar delegacias estratégicas. A maior parte dos indicados estava em início de carreira. Os ‘inhos’ são ligados ao ex-chefe de Polícia Civil e deputado estadual eleito Álvaro Lins, classificado pelo delegado Moretti como “chefe do bando de agentes ligados à máfia dos caça-níqueis”.
A estratégia servia para que as unidades ficassem sob ordens dos ‘inhos’. Assim, eles poderiam evitar repressão ao grupo de Rogério. Esses delegados são conhecidos na investigação como ‘jóqueis’ — menção aos esportistas que participam de corridas em que o cavalo é mais importante que o cavaleiro, por ter a força e velocidade.
Um outro figurão da Polícia Civil seria alvo da PF. Embora seu nome ainda não tenha sido citado, ele foi à Justiça Federal saber se realmente era um dos investigados. Desesperado, tem pedido para só ser preso pela PF na presença de agentes da Corregedoria da Civil.
Na denúncia do MPF consta o nome do produtor da TV Globo José Messias Xavier. Segundo o documento, o jornalista receberia dinheiro do grupo de Iggnácio para repassar informações que interessassem à quadrilha. Messias nega. Entre os já presos está o coronel Celso Nogueira, que comandava o 14º BPM (Bangu). Ele teria sido filmado almoçando com seguranças de Iggnácio. Sábado, também foi preso o policial civil Paulo Cesar Oliveira, o PC. Ele seria responsável por levar a propina até delegacias do esquema de Iggnácio.
De R$ 3 mil a R$ 40 mil
O trabalho dos federais começou há dois anos. O material inicial foi enviado pela Secretaria de Segurança. À época, investigadores especulavam valores recebidos pelos policiais ligados à máfia dos caça-níqueis. Pela tabela estimada, PMs de baixa patente, como soldados e cabos, responsáveis pela segurança das máquinas, ganhavam até R$ 3 mil por mês (de R$ 80 a 100 por dia). Oficiais poderiam receber até R$ 5 mil por mês. Se fosse coronel, o preço subiria para R$ 20 mil. Na Polícia Civil, valores chegariam a R$ 40 mil, divididos entre inspetores e delegados.
As apurações da PF mostram que Rogério gastava por mês, só na região de Bangu, R$ 260 mil em propinas para policiais. Ao ser preso, em setembro, ele tinha lista com nomes e valores de propinas, apreendida pela PF.
Carro envolvido em morte
Em 21 de abril do ano passado, Jorge Camilo Tambasco, 32 anos, foi atropelado e morto pelo Passat preto blindado placa AVP-0023 de Mogi das Cruzes (SP), de Antônio Carlos Macedo. Sargento bombeiro, Macedo está preso, acusado de envolvimento com Rogério Andrade. O acidente foi na Avenida Armando Lombardi, Barra da Tijuca. Jorge estava numa moto quando foi atropelado pelo Passat na contramão. A batida foi tão violenta que o motoqueiro teve a perna esquerda decepada.
No dia do acidente, Macedo registrou o roubo de seu carro na 16ª DP (Barra da Tijuca), conforme registro de ocorrência 016-04059/2005. Ele disse que foi abordado por um casal quando saía de uma boate. No mesmo dia, duas horas depois, o PM Luiz Claudio Santos da Silva foi à delegacia registrar o atropelamento. No registro número 4060/05, consta o roubo do Passat e informação de que os ocupantes do carro fugiram após o acidente, abandonando o veículo no local. O caso acabou indo parar na Delegacia de Homicídios Oeste (DH/Oeste).