Rio - Durante todo o dia de quinta-feira, a única autoridade a dar uma explicação convincente sobre o motivo dos ataques foi o secretário de Administração Penitenciária (Seap), Astério Pereira dos Santos. Segundo ele, a cúpula da Secretaria de Segurança Pública (SSP) já sabia da onda de terror desde terça-feira. "Recebi informação do setor de inteligência da própria SSP, com data de 26 de dezembro, informando que bandidos atacariam dia 28 (quinta-feira), em resposta à atuação de milícias que estariam expulsando o tráfico de comunidades", revelou.
Astério disse ainda que há dois meses enviara ofícios para os órgãos de inteligência do estado e da União, avisando sobre a insatisfação de líderes do tráfico presos com o avanço das milícias.
Já o secretário de Segurança Pública, Roberto Precioso, alegou que a mudança de governo e, conseqüentemente, do comando da Seap, teria motivado o ataque."Os bandidos estão pressionando para negociar com o novo governo concessões e privilégios. O medo deles é que seja adotado um regime disciplinar mais duro que eles querem impedir de qualquer forma", disse. Sobre as milícias, Precioso descartou. "O assunto milícias pra mim é uma grande besteira. Não existe. O que existe são justiceiros, matadores, e todo mundo misturou tudo", avaliou.
O documento, com o timbre da Subsecretaria de Inteligência (SSI), que alertava sobre os ataques de ontem, tinha informações dando conta de que dia 25, durante uma festa de Natal no Morro da Mangueira, o traficante Jorge Ferreira, o Gim, que controla o tráfico na Cidade de Deus, Jacarepaguá, se reuniu com traficantes de vários pontos da cidade para planejar o ataque. A data marcada: 28 de dezembro.
O último parágrafo do informe apontava o motivo da onda de violência: "Os ataques seriam em represália aos grupos formados por policiais que expulsaram traficantes do Comando Vermelho de algumas favelas do Rio de Janeiro".
As declarações de Astério e o documento da SSI rebatem as afirmações do secretário Precioso, que disse também que as ações da polícia evitaram uma "tragédia maior". "As informações da nossa área de inteligência e a colocação das forças policiais nas ruas impediram, apesar das lamentáveis mortes de policiais e inocentes, que houvesse uma tragédia maior". Mas o secretário não informou quais os locais da cidade que receberam reforço policial. Precioso também disse que todos os policiais que estavam trabalhando ontem nas ruas e delegacias sabiam do risco de ataques de criminosos.
SECRETÁRIO VOLTA ATRÁS
Para a governadora do Rio, Rosinha Garotinho, mesmo com as mortes, os bandidos não alcançaram seus objetivos. "Os fatos ocorridos não foram como em São Paulo. Ele queriam, sim, reeditar o que aconteceu em São Paulo, mas não conseguiram. Graças ao nosso serviço de inteligência, que descobriu o plano e botamos a polícia na rua para evitar o pior".
Sobre a afirmação de Precioso, durante entrevista à imprensa de ontem, de que existe risco de ataques no réveillon, ele esclareceu mais tarde, através de nota escrita por assessores, que sua declaração não foi "bem compreendida" e que "toda força policial está sendo empregada para garantir segurança a festa", para turistas e cariocas. Ele acrescentou que os principais líderes do crime, presos, estão isolados.
Ações para tentar conter novo caos
Pela manhã de quinta-feira, equipes da PM iniciaram a ocupação e a contenção (proteção para evitar invasão) de 23 morros da cidade para tentar reprimir a ação dos criminosos. À tarde, o chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallack, determinou o início da Operação Caçador, com o objetivo de policiar os locais de possíveis novos ataques.
Por volta das 11h30, 50 PMs e dois blindados realizaram operação no Complexo do Alemão, em Ramos. Houve troca de tiros e correria. Vários automóveis foram metralhados. Quem passava se abaixava dentro dos carros para se proteger das balas. Um casal de moto derrapou e caiu devido aos tiros.
Os ocupantes de um furgão que fazia uma entrega de cosméticos no local precisaram retirar trilhos de um dos acessos ao Alemão que serviam como barricadas. A traseira do carro foi metralhada. Durante as operações, sete pessoas foram presas e houve apreensão de dois fuzis, quatro pistolas, duas granadas e 100 quilos de maconha. Numa ação na Vila Cruzeiro, Penha, o inspetor da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos, Nilson Vieira de Souza, 39 anos, foi ferido. Ele foi operado e passa bem.