Rio - A expansão das milícias nos últimos quatro anos chegou ao seu ápice no segundo semestre de 2006. De Jacarepaguá, onde os policiais começaram a se reunir para expulsar traficantes das favelas, elas foram se alastrando pelo Rio e hoje dominam 80 comunidades. Até que chegaram à região da Maré, uma das mais bem armadas da cidade, tomando o entorno do Piscinão de Ramos e a Roquette Pinto há três meses, como O DIA noticiou em 26 de novembro. De lá pra cá os traficantes começaram a colocar em prática plano de reação, antes de perder terrenos mais lucrativos.
Independentemente de facções, a chamada ‘polícia mineira’ — que tem pelo menos 20 grupos diferentes — cresceu o olho nos lucros que estas comunidades poderiam lhes trazer com a exploração do transporte alternativo, do comércio do gás e das TVs a cabo, o ‘gatonet’.
Da Favela Kelson’s, na Penha, por exemplo, o plano da milícia era expandir de imediato seu domínio a outras quatro comunidades próximas: Cidade Alta, em Cordovil, Dique e Furquim Mendes, ambas no Jardim América, e Vigário Geral. Detalhe: todas dominadas pelo Comando Vermelho.
Para o outro lado da Avenida Brasil, em direção à Maré, mais duas favelas controladas pelo CV (Parque União e Nova Holanda) também ficaram na berlinda. Assim como a Vila Kennedy e a Metral, em Bangu: “Lá o Léo Barrão (líder do tráfico) chegou a colocar vapores com granadas para tentar barrar a entrada da milícia”, afirma um agente da Polícia Civil.
No bairro de Jacarepaguá, as bocas-de-fumo ainda resistem apenas na Cidade de Deus. Ainda assim, nos últimos meses, os boatos de uma possível invasão da milícia — que utilizaria 150 homens com fuzis e granadas — ganhou força e, com medo, todos os líderes do tráfico passaram a dormir fora da favela. Os principais deles são os irmãos Paulinho e Julinho da 15, abrigados no Complexo do Alemão, e o tio deles, Jorge Ferreira, o Gim, que vive em um dos apartamentos da localidade conhecida como Moc, no Morro da Mangueira.
O traficante já controla o tráfico de drogas da chamada Quadra 15, na Cidade de Deus, há mais de uma década. Gim foi um dos articuladores da madrugada e da manhã de terror. Homens do Serviço Reservado da PM informaram que na reunião de líderes criminosos na Mangueira, dia 25, quando os ataques foram planejados, também participaram um conhecido traficante dos anos 90, que ganhou a liberdade recentemente, além do chefe do tráfico do morro, Jonas da Silva Sales, o Joaninha.
A pressão das milícias também chegou à Ilha do Governador: traficantes do Morro do Barbante fugiram antes de ser atacados, deixando a favela. Não foi apenas o CV que perdeu espaço. As duas comunidades invadidas na Maré eram controladas pelo Terceiro Comando Puro (TCP). E lá, a Baixa do Sapateiro se tornou outro alvo da milícia. A facção Amigos dos Amigos (ADA) perdeu favelas em Realengo e Campo Grande.
ATÉ ESCOLA NA MIRA
No fim da madrugada de quinta-feira, bandidos atacaram a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), em Vila Isabel, prédio onde também funciona uma das carceragens da Polinter, abrigando mais de 500 presos. Os tiros de fuzil começaram a ser disparados com os veículos ainda em movimento e vários atingiram paredes e muro da Associação de Assistência à Criança Surda (AACS), uma escola para deficientes auditivos.
Uma blazer da Polícia Civil que estava estacionada em frente foi fuzilada. Janelas das salas foram destruídas e as marcas das balas estavam por toda parte da frente da delegacia. O estrago só não foi maior porque, do Morro dos Macacos, atrás da DRE, bandidos da facção Amigos dos Amigos (ADA), temendo um ataque, reagiram atirando para cima dos inimigos, que fugiram. À tarde, agentes receberam informação de que poderia acontecer outro ataque do CV, desta vez para tentar resgatar presos de dentro da Polinter. A segurança na porta da unidade foi reforçada.
Prejuízo no comércio pode chegar a R$ 500 milhões
O comércio do Rio deve ter amargado prejuízo de R$ 500 milhões ontem devido ao medo de novos ataques na cidade, segundo a Associação Comercial do Rio. Lojas chegaram a registrar queda de faturamento de até 50%. Para comerciantes de 32 shoppings, a receita pode deve ter caído 25%, o equivalente a R$ 5 milhões. A projeção é da Associação das Empresas Lojistas em Shopping Centers (Aloserj).
Bangu: fogo em 3 ônibus
Três ônibus foram queimados (foto) ontem em Bangu por bandidos da Vila Aliança. O fogo destruiu coletivos das empresas Gallup Turismo de madrugada e Andorinha e Campo Grande pela manhã.
Ronaldo evita ir ao Recreio
Convidado por Zico para participar de uma pelada beneficente no campo do CFZ, no Recreio, Ronaldo Fenômeno não compareceu e justificou que estava com medo da onda de ataques na cidade.
Guerra entre policiais e bandidos no rádio
Na madrugada de terror, policiais faziam alerta pelo rádio aos colegas sobre a ação de criminosos.
Policial: "Mais uma vez, Cecopol pede. Pelo amor de Deus! Todas as delegacias, verifiquem os rádios, façam testes de rádios, queiram ficar atentos... peguem os fuzis, engatilhem os fuzis e as armas e queiram ficar atentos para ninguém ser mais surpreendido!"
De manhã, bandidos invadiam a freqüência da polícia e faziam provocações. Em várias delas deixavam claro que estavam apenas colocando em prática as ameaças feitas e que as autoridades não acreditaram.
Bandido: “Fala aí, ô melissa (referência a milícia). Agora vocês acreditam? E vai ter muito mais.”
PM: “Não é melissa. É milícia. Não serve nem para ser bandido! Melissa é sandália que você usa, vagabundo.”
Bandido: “Se vocês não tivessem invadido nosso pedaço, não ia ter nada disso. Enquanto não saírem não vai parar.”
PM: “Vamos pegar vocês, seus covardes.”
Bandido: “Agora de dia é mole. Por que não encararam o comboio na madrugada? Vai morrer polícia e quem tiver junto. O terror vai pegar geral: delegacia, shopping, parque, escolas e o que tiver.”