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30/12/2006 20:32:00

Paz: desejo do carioca para 2007

Cidadãos deixam o medo de lado e aguardam o Ano Novo com esperança no fim da violência

Rio - Na esperança de um tranqüilo brinde de boas-vindas a 2007. Assim amanhecem os cidadãos do Rio neste domingo, ainda atordoados pela série de ataques de criminosos da última quinta-feira. Depois do dia em que o clima alegre das festas de fim de ano foi trocado pelo pânico, milhões de cariocas invadirão praias esta noite com os mais variados pedidos. Um deles em comum: a paz.

Pensando nisso, PMs distribuíram rosas brancas aos banhistas que passeavam pela orla do Leme, ontem. Recebendo em troca sorrisos largos e agradecimentos, os policiais espalharam felicidade com o gesto, espantando a insegurança que tem embalado a cidade. Pai de dois filhos, o soldado Domingues, do 19º BPM (Copacabana), era só alegria: "Estou realizando o sonho da minha mãe, que dizia quando eu era pequeno que um dia eu distribuiria flores." O PM estava de plantão na madrugada dos ataques. "Meus filhos me ligaram preocupados", lembra. Seu colega, o soldado Ricardo Soares, explica: "Minha mãe também fica muito tensa com essa situação, mas faz parte da profissão." O PM Guimarães, também soldado e pai, quer um 2007 de muita calma. "Quero para o ano muita paz, pelo amor de Deus."

FÉ NO FUTURO

A fé em um ano melhor esbarra em tristes episódios como o de Botafogo, quando Suely Maria Lima de Souza se sacrificou pelo filho Gabriel Lima Brito, 6 anos. Bandidos passaram atirando numa cabine da PM, e ela foi baleada e morreu ao proteger o menino, atingido de raspão. A tradutora Anna Nystrom, 44 anos, entende bem a situação. Mãe, ela sente que a cidade não passa pelos seus melhores momentos, mas há de se acreditar num futuro melhor. Quinta-feira, ela estava no cinema com sua filha Mariana, 4, e a sobrinha Renata, 9, sem saber de nada. "Sempre espero que haja mudança. Confesso que não fiquei com medo no dia. A gente sempre pensa que nunca vai acontecer com a gente", diz.

As rotineiras andanças de bicicleta com a incomparável visão da Lagoa Rodrigo de Freitas fazem a descendente de suecos ter certeza de que, mesmo com todos os acontecimentos da cidade, não há motivos para querer se mudar. Anna já morou em Berlim, Alemanha, por alguns meses, mas nunca teve vontade de se mudar definitivamente para outro país. "Aqui tem uma diferença: as pessoas são muito alegres. Esse clima que só o Rio tem nos leva a crer que podemos ser otimistas."

MEMÓRIA - A ONDA DE TERROR QUE VARREU O RIO

A onda de terror começou na madrugada de quinta-feira. Em vários pontos do estado, em especial em 18 bairros da capital, houve 32 ataques que resultaram em 18 mortos e pelo menos 30 feridos. Na sexta-feira, houve alguns outros episódios, mas sem tanta gravidade. Ontem, subiu para 19 a quantidade de vítimas fatais, com a morte de um homem que sofrera queimaduras.

Fora o choque com a violência, o que surpreendeu os cariocas foi o fato de os ataques terem sido uma espécie de ‘protesto’ de traficantes. Eles ‘reivindicam’ de volta seus redutos, perdidos para milícias — grupos de policiais, ex-policiais e bombeiros que, ilegalmente, tomaram para si o controle de pelo menos 80 favelas do Rio. Eles expulsaram o tráfico e impuseram suas leis, sob o pretexto de garantir segurança à população.

Os ataques foram a cabines e patrulhas da PM, além de delegacias. Também houve queima de ônibus. Entre os mortos, estão nove civis (o número subiu para 10 ontem). Num dos mais cruéis ataques, morreram carbonizados dentro de ônibus sete passageiros que viajavam do Espírito Santo para São Paulo e passavam por Cordovil.

Terça-feira, o governo do estado já sabia dos ataques e alega ter tomado providências para "evitar o pior".

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