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13/1/2007 02:00:00

Assassinato de ganhador da Mega-Sena: Tumulto em Rio Bonito

Presença da viúva do milionário em delegacia provoca confusão, com tiros, gás de pimenta e agressões. Delegado pede à Justiça a quebra do sigilo bancário e telefônico da cabeleireira

Christina Nascimento
Francisco Édson Alves

Rio - Tiros para o alto, gás de pimenta, empurra-empurra, gritaria e muito tumulto. Foi em meio a uma confusão generalizada, que parou o Centro de Rio Bonito, que a cabeleireira Adriana Ferreira de Almeida, 29 anos, deixou a delegacia da cidade, no fim da tarde de ontem, após depor durante seis horas no inquérito que investiga a morte de seu marido, Renné Senna, 54, ganhador de R$ 52 milhões na Mega-Sena em 2005 e assassinado domingo. Ela é apontado por parentes do milionário como a mandante do crime.

O delegado Ademir Silva, da 119ª DP (Rio Bonito), disse que pedirá à Justiça a quebra dos sigilos bancário e telefônico da viúva, além do bloqueio da movimentação financeira da conta do casal. Segundo ele, está afastada a possibilidade de a execução ter sido por motivo passional.

A presença de Adriana na delegacia provocou tumulto inédito no município. Quando tentou deixar a DP pela porta da frente, foi hostilizada com gritos de "assassina" por cerca de 500 pessoas que passaram a tarde no local. A viúva voltou para a delegacia, que teve as portas fechadas. Na confusão, Adriana foi empurrada e teria sido atingida por soco, desferido por mulher, quando se dirigia para um de seus veículos — picape S-10 e Santana.

Só com a chegada do reforço de mais PMs, a cabeleireira conseguiu deixar a delegacia. Mesmo assim, um PM teve que disparar três tiros para o alto e outro usou spray de pimenta para afastar a multidão. "Se não fizéssemos isso, ela seria linchada", justificou um policial.

Na versão de Adriana, o motivo do crime seria vingança, porque o marido teria se recusado a emprestar dinheiro a algumas pessoas. Mas ela não citou nomes. Sem mostrar emoção — não chorou e bebeu água e café — , ela contou que o marido desconfiava que não era o pai de sua filha única, Renata Senna, e que teria comentado com a jovem, no Natal, que ingressaria com ação de investigação de paternidade.

"Talvez seja necessária uma acareação entre Renata e Adriana", comentou o delegado. A cabeleireira disse que ficou surpresa com as acusações de Renata, pois teria um ótimo relacionamento com a filha de Renné, que lhe teria enviado, pelo celular, torpedos de felicitações.

Segundo a viúva, o marido começou a se afastar dos parentes porque teria percebido "gastança" de seu dinheiro. "A irmã Jucimar Senna e o marido dela, que eram faxineira e jardineiro na mansão do Recreio, ganhavam R$ 5 mil cada um", disse ela ao delegado.

Adriana afirmou que o marido fez dois testamentos. No primeiro, logo que ganhou o prêmio, a fortuna seria dividida ente os 11 irmãos. Após se casar com a cabeleireira, Renné teria decidido beneficiá-la, dividindo a herança com Renata.

A polícia investiga ainda outro crime que pode ajudar na elucidação da morte do milionário: o assassinato do PM David Vilhena Silva, ex-segurança de Renné, em setembro, na Ilha. Os investigadores esperam a conclusão dos laudos da perícia e pretendem analisar as ligações do celular do PM.

Assédio à cabeleireira era antigo

No depoimento, Adriana afirmou que sempre foi objeto de desejo de Renné, desde que ela era criança. O pai dela e o milionário seriam amigos. "Ela disse que o assédio aumentou quando foi morar na casa de Ângela (irmã do Renné), em Tanguá, onde ele também vivia. Adriana afirmou que não quis namorá-lo por ter saído pouco tempo antes de um casamento", relatou o delegado.

Pouco depois de acertar a Mega-Sena, Renné teria voltado a procurá-la. Segundo ela, o milionário sempre ia à sua casa, em São Gonçalo, com seguranças, mas ele teria uma namorada, Patrícia. Por isso, Adriana teria preferido manter apenas amizade. "Para ficarem juntos, ele teria que terminar o relacionamento com Patrícia. Ele assim fez", declarou ela no depoimento.

Adriana negou que tivesse amantes. Segundo a cabeleireira, apesar da deficiência física de Renné — que não tinha pernas em função de diabetes —, eles tinham uma vida sexual normal. A viúva garantiu que o casal pretendia ter um filho e que ela já tinha parado de tomar anticoncepcionais. Ela prometeu levar segunda-feira a lista com os nomes de todos os seguranças do marido. Segundo Adriana, as equipes sempre foram contratadas pelo milionário.

VENDAS DISPARAM EM FRENTE A DP

Comerciantes das ruas Desembargador Itabaiana de Oliveira e 15 de Novembro lucraram como nunca com a multidão em frente à delegacia para ver a viúva do milionário. "Vendi mais de 400 salgados e umas 15 caixas de refrigerante e cerveja. Foi 900% a mais do que o normal", comemorou Gerson Silva, dono de uma lanchonete. O ambulante Geraldo Ribeiro foi outro a festejar a aglomeração. "Em uma hora, vendi quase 100 picolés", contou ele, que aproveitou para subir o preço do sorvete de R$ 0,50 para R$ 0,70.

Curiosos em saber o que "a loura milionária" iria dizer à polícia, o açougueiro Waldiney Alves e mais 10 funcionários do Supermercado Lagos deixaram de almoçar para ficar de plantão na porta da DP. "Ela tem que se explicar", comentou Waldiney. O pintor Tarcísio Meira Rosa da Silva nem foi trabalhar. "É um fato inédito aqui. Não poderia perder toda essa movimentação", justificou.

Algumas amigas de Adriana também passaram o dia nas imediações da delegacia. "Espero que não cometam injustiças. Adriana não teria coragem de praticar nenhum crime", defendeu a comerciária Rafaela Souza, que conheceu a cabeleireira quando ela tinha salão em Rio Bonito. Vários moradores de distritos rurais também foram para o Centro, especialmente para o ‘evento’.

Entre as pessoas que aguardavam notícias estavam Jucimar, 52 anos, e Márcio Senna, 47, irmãos de Renné. "Queremos acompanhar toda a investigação. Alguém terá que pagar pela covardia que fizeram com meu irmão", afirmou Jucimar, que diz ter ganhado R$ 500 mil do milionário. "Não penso em vingança, mas sim em Justiça", completou Márcio.

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