Rio - Pelas ruas por onde o Corsa passou, arrastando João, havia rastro de sangue pelo chão e clima generalizado de revolta, tristeza e inconformismo. Muitos moradores que acompanharam a cena de barbárie correram atrás do carro, desesperados, numa tentativa sem sucesso de parar aquele veículo e salvar o menino. Pelo menos três motoristas também tentaram alcançar os bandidos, piscando farol alto, aos gritos pela janela.
O comerciante Rodrigo Germano, 69 anos, seguia para ponto de ônibus na Rua Cerqueira Daltro, por volta das 21h, quando viu o carro passar “como um foguete”. Ele não conseguiu identificar o que estava pendurado na porta traseira do Corsa, do lado esquerdo, e batia no asfalto e saía do chão. “Parecia um papelão, do jeito que voava”, afirmou. Ontem, pelos jornais, soube que se tratava de um menino. “Estou arrasado. Não contive as lágrimas.”
Alguns metros à frente, na Rua Florentina, moradores de Cascadura que se divertiam em um bar ouviram barulhos de ferro batendo no asfalto. Já havia correria pela rua e buzinaço. “Achamos que carro tinha atropelado alguém de bicicleta. Depois, vimos criança, presa pelo cinto na altura da barriga, sendo arrastada pelo chão. Já estava irreconhecível e não conseguimos saber se era menino ou menina. Os moradores correram, e quanto mais corriam, mais o carro acelerava. Deviam estar drogados, com medo de ser linchados. Porque era o que aconteceria se parassem”, afirmou o dono do bar, Orlando José, 54.
Ele contou que alguns moradores deixaram o bar e seguiram o rastro de sangue. Ao grupo, juntavam-se outras pessoas, que não acreditavam no que viam. “Estamos inconformados. Cliente voltou chorando e contou que o rosto da criança estava desfigurado. Suas roupas também estavam rasgadas e a cena era de filme de terror”, lembrou Orlando.
O pedreiro Cláudio Lima, 32, ouviu os gritos da mãe de João quando os bandidos arrancaram com o carro, em frente à sua casa, na Rua João Vicente, em Oswaldo Cruz. Ele contou que ainda viu Rosa Cristina, desnorteada, correndo atrás do veículo e gritando por socorro.
A aposentada Luiza Helena, 57, sabe que não esquecerá a cena que encontrou, quando ouviu freada e abriu a porta de casa, na Rua Caiari, Cascadura. “Vi corpinho debaixo da roda, decapitado, em posição fetal. Voltei em casa, sem crer no que tinha acabado de ver, peguei pano e cobri a criança. Ela estava sem os dedinhos e com a pele toda machucada, ainda sangrando. Tenho netinhos nesta idade e fico imaginando a dor dessa mãe. Aquilo nem é bandido, não pode ser ser humano. Hoje (ontem), lavei o asfalto e sei que, enquanto viver, vou sempre lembrar disso”, disse, aos prantos.
Durante as investigações para descobrir os criminosos, o delegado Hércules Pires esteve na Rua Caiari. Ele nasceu e foi criado na via. “Nunca pensei que um dia viesse aqui investigar este crime bárbaro”, disse. Moradores contaram que dois bandidos saltaram do Corsa e, sem dizer nada, se abaixaram para ver o corpo do menino, que estava de cueca verde. Foram até escadaria na rua sem saída, que termina na Praça Três Lagoas, mas desistiram da rota e voltaram, caminhando.
A avó de João, Neuma Vieites, disse que ele era carinhoso, alegre e doce: “Ninguém entendeu porque fizeram essa brutalidade. Eu estou sentindo a dor do meu filho, a dor da minha nora, a dor da minha neta e a dor de perder o meu pequeno. A Aline ainda tentou tirar ele. Por que fizeram isso?”.