Rio - “Sei que sozinho não vou conseguir mudar o mundo, mas pelo menos mudarei a vida de algumas pessoas e um pouco delas mesmas”. O discurso creditado a Társio Wilson Ramires, publicado no site da ONG Terr’Ativa, contrasta com a frieza com que ele relatava os crimes que acabara de cometer: “Queria apenas dar um belo susto. Mas de repente começou a briga e aí... Mas eu só dei uma facada no Christian. O resto foi tudo o Luiz”, acusou Társio, que vestia uma camisa social preta, uma novíssima calça jeans e um tênis Puma da moda.
Luiz Gonzaga rebateu. “Foi ele quem matou. Agora vai ficar dizendo que eu fiz tudo sozinho. Então sou o super-homem”, ironizou o preso, ao se defender. Ele classificou os franceses, para quem trabalhou em alguns projetos de dança recentemente, como duas “pessoas maravilhosas”.
LÍDER DE PROJETO
Menino pobre de Quintino, Társio se aproximou de Delphine em meados de 1997. Ele foi um dos primeiros jovens beneficiados pela ONG, que começou a ser idealizada em 1998, mas que só entrou em ação a partir de abril de 2000. Foi quando o então marido dela, Jérôme, também já morava no Rio.
Ao longo dos anos, Társio cresceu dentro da ONG. Tanto que ganhou a incumbência de coordenar um dos programas mais importantes da organização: o projeto Brilho da Lua, que ajuda crianças do Morro do Fubá, em Cascadura.
Na delegacia de Copacabana, Társio insistiu em dizer que milhares de reais de doações eram desviados pelos franceses, a quem acusou de usar drogas. “Eles queriam cortar o financiamento do projeto e eu não aceitei. Foi quando a Delphine me procurou e me pôs dentro do esquema”, disse ele, que comprou facas e máscaras no Camelódromo da Uruguaiana.
Craques ajudavam a ONG no Rio
Além de franceses e de alguns brasileiros, a Terr’Ativa conta ainda com o apoio de ilustres parceiros do mundo do futebol, como o jogador Juninho Pernambucano, ídolo do Olympique de Lyon, atual pentacampeão francês, e o ex-jogador do São Paulo Raí, tetracampeão pelo Brasil em 1994.
Segundo o site da ONG, Juninho tornou-se o “padrinho” da organização em 2005. Na página de abertura, o meia é homenageado pelo seu aniversário no dia 30 de janeiro.
Crianças do projeto social da Terr’Ativa aparecem num vídeo parabenizando o jogador, celebrado num texto como “exemplo e ídolo sempre no nosso coração”. A ONG tem ainda como parceiros as empresas Supergasbras (distribuição de gás) e Polenghi (fabricante de laticínios).
CHOQUE: CRIME ABALA MEMBROS DE PROJETOS
Alguns dos integrantes da ONG Terr’Ativa, que preferiram não se identificar, comentaram ontem a relação quase paternal que Christian Pierre e Delphine Douyére tinham com o jovem Társio Wilson Ramires, responsável pelo assassinato do casal e de Jérôme Faure.
Segundo uma psicóloga do projeto Superativos — dirigido pela ONG em Honório Gurgel desde 2003 —, Társio sempre teve um comportamento tranqüilo e os três franceses mortos nunca tinham revelado qualquer ameaça de morte. “Conheci todos eles em 2002, em um trabalho voluntário no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Todos sempre me passaram muita credibilidade”, afirmou. O programa contemplava, aos sábados, jovens carentes de 17 a 19 anos com palestras sobre temas referentes à juventude.
Já uma supervisora do projeto Brilho da Lua afirmou que a preocupação maior agora no Morro do Fubá é se o programa vai continuar. “Quarenta crianças são atendidas normalmente e mais 40 seriam acrescidas este ano”, contou a supervisora, que ontem fechou as portas do projeto aguardando o contato de alguém da ONG.
Um funcionário da editora espanhola Del Prado — umas das empresas que financiava as ações da Terr’Ativa — afirmou que nunca desconfiou da possibilidade de desvio de dinheiro da ONG por Társio e outros integrantes. “Comigo era tudo direitinho”, afirmou, contando estar abatido com a perda dos seus amigos pessoais.
Imprensa estrangeira noticia assassinatos
Os sites dos jornais Le Monde e Libération, dois dos maiores da França, noticiaram ontem o assassinato dos três franceses no Rio de Janeiro. No Le Monde, o crime teve destaque na área de notícias internacionais, com o título: “Três franceses são mortos com arma branca em Copacabana”.
Já o texto do Libération, sob o título “Três franceses mortos em Copacabana”, afirma que um policial descreveu como “uma cena macabra” a situação em que os corpos foram encontrados.
No espaço destinado a comentários, um dos leitores do Libération afirma: “Nós podemos criticar os Estados Unidos, mas o Brasil não é melhor. A pobreza e a falta de educação são incontestavelmente responsáveis.”
Outro leitor elogia o trabalho da ONG Terr’Ativa, que os franceses dirigiam.