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19/5/2007 21:56:00

Bola de neve para o futuro

Especialista alerta que pouco investimento e descontinuidade na educação levam à barbárie

Rio - O Rio de Janeiro é o estado da Região Sudeste que mais gastou em Segurança Pública em 2005, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas. Enquanto no Rio o valor por habitante foi de R$ 239,8, Minas Gerais gastou R$ 171,7 e São Paulo, R$ 153,8.

Mas, na comparação com recursos destinados à Educação, outra prioridade de governo de Sérgio Cabral, a população fluminense recebeu menos investimentos do que a paulista. Proporcionalmente, o gasto per capita no Rio foi de R$ 236,8, atrás de São Paulo, que investiu R$ 328,8 por habitante, mas está à frente de Minas Gerais, com R$ 202,7 por pessoa em 2005.

Para especialistas em educação, a falta de investimentos na área pode explicar o aumento na criminalidade no Rio. “A única forma de combater a barbárie é produzir civilização. Isso só se obtém com escolas e professores em sala de aula”, defende Yvonne Maggie, doutora em Antropologia Social e professora do Instituto de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo ela, o grande problema do estado é a falta de continuidade nas políticas públicas. “A educação não é uma questão de governo, mas de Estado. No Rio, mesmo os programas que estão dando certo não têm seqüência com mudança de governo”, critica Maggie.

Com 40 anos no magistério, a antropóloga sugere mudanças urgentes para reverter o quadro negro. “Acredito que o conhecimento pode ser passado para qualquer pessoa. Mas é preciso que todos façam a sua parte. O estado precisa investir em programas de qualificação e melhorar os salários e os professores, que devem acreditar no potencial desses jovens”, defende.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2005 apontam que um a cada oito brasileiros de 15 a 18 anos não freqüenta escola nem tem emprego. Se for considerada a população de 18 a 25 anos, um a cada quatro está nessa situação. Com menos de oito anos de escolaridade, esse contingente de jovens tem poucas chances de se inserir no mercado de trabalho.

SEIS MESES SEM AULA

Essa é a preocupação que tem tirado o sono de Rosilene Pinheiro da Silva, 30. Com filhos ainda crianças, a dona-de-casa já pensa nos prejuízos que eles podem ter no futuro. Rayssa, 9 anos, está na 2ª série do Ensino Fundamental. Repetiu a 1ª, no ano passado, ficou seis meses sem aula. “Ela tinha dificuldades e ficou um semestre sem estudar. Este ano, as aulas começaram com 20 dias de atraso”, conta a mãe.

Em compensação, Rafael Ryan, 6, ainda não conseguiu usar mochila e cadernos novos. “Ele estava empolgado porque começaria a estudar este ano, mas, até agora, nem sinal de professor. O que será dos meus filhos sem estudo? Vão acabar ganhando salário mínimo ou coisa pior”, teme Rosilene. Rafael e Rayssa são alunos do Ciep Senador Severo Gomes, em Nova Iguaçu, onde colegas de 5ª a 8ª série chegaram a dar aula para os de 1ª a 4ª série, como mostrou O DIA há 1 semana.

Para a doutora em Sistema de Ensino Brasileiro, Maria de Lourdes Sá Earp, tão grave quanto a falta de professores é a falta de comprometimento deles com o ensino. “O aluno não tem como aprender se não for ensinado. O mestre tem que estar disposto a ensinar. Ele é a figura-chave da Educação, na sala ele faz a diferença. Se uma criança não teve aulas de Matemática na série anterior, virá com defasagem. O professor não pode ignorar isso. É obrigação do profissional da educação assumir a missão de ensinar, independentemente do déficit que o aluno traga”, afirma.

Mãe e filha sem aulas na mesma escola

“Tô doida pra sair daqui”, desabafa Maria Nogueira Dias, 42 anos. A aluna do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Nova Campina engrossa o grupo de estudantes que não suportam mais esperar por aulas em Duque de Caxias. Segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação, 1.250 docentes são necessários para cobrir o déficit da rede estadual no município.

A mesma escola, que só oferece quatro disciplinas para Maria Nogueira no turno da noite, também não tem professores para a sua sua filha, Mayara Dias, 11. Estudante da 6ª série diurna, Mayara só tinha aula de cinco disciplinas até que a mãe conseguiu transferi-la para um colégio municipal. “Infelizmente eles não têm vaga para mim lá. Quero garantir o futuro da minha filha, porque sei como é difícil ter alguma chance no mundo lá fora sem estudo. Tô no 3º ano, quero aprender de verdade, terminar o Ensino Médio e fazer faculdade de Letras. Mas este ano já não vou conseguir porque não tenho aula”, lamenta Maria.

A Promotoria de Infância e Juventude de Caxias recebeu quatro denúncias de falta de professores e promete entrar com ação cível contra o estado. “Já solicitei à diretoria das unidades que informe a necessidade real de cada uma. Assim que tiver estes dados, entrarei com a ação pedindo a contratação imediata dos professores”, explicou a promotora Andrea Amim. Caso não haja contratações, a promotoria pedirá que o estado pague bolsa de estudos em colégios particulares aos alunos que estão sem aula.

SOLUÇÃO ADIADA TRÊS VEZES

O caos que atinge o sistema educacional no Estado do Rio já teve inúmeras datas para o seu fim, mas, até agora, 4 mil professores continuam sendo aguardados para preencher o déficit de docentes nas escolas da rede. A situação é pior na Baixada Fluminense, São Gonçalo e Niterói.

Ao assumir a pasta, o secretário Nelson Maculan anunciou solução para o dia 20 de março; depois, para o fim de abril; no dia 2 de maio, falou sobre novas contratações e listagens e, por fim, prometeu que 2.600 convocações de mestres concursados seriam feitas até a última sexta-feira. Entretanto, somente 227 professores foram chamados através do Diário Oficial de sexta — todos para São Gonçalo, onde a carência é de pelo menos mil mestres, segundo o Sindicato Estadual de Profissionais da Educação. A Promotoria da Infância e Juventude de São Gonçalo garantiu na Justiça a convocação de docentes para o município. Caso não cumpra a determinação, o Estado — que já foi notificado — pode ser condenado a pagar multa de R$ 25 mil por dia sem aula.

Sexta-feira, a Secretaria de Educação informou que esta semana convocará mais mestres, mas sem revelar quantos.

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