João Antônio Barros
Rio - A linha-dura sentou na cadeira máxima da PM. Simpático à política que preza a disciplina e o combate à corrupção, o novo comando da corporação vai colocar nas ruas uma polícia bem menos social e mais combativa. Não necessariamente na base do ‘brucutu e pé-na-porta’, já que o histórico de Gilson Pitta, comandante da PM, e Antônio Carlos Suarez David, chefe do Estado-Maior, é de reprimir com rigor os excessos de policiais, segundo coronéis reformados que já comandaram a dupla. Mas o apego à hierarquia e à disciplina estão, para o novo comando, bem acima de qualquer outro atributo do policial militar.
Ligados aos serviços de Inteligência da PM, onde debutaram na polícia, é quase garantido que a dupla usará muito mais a cabeça e as informações privilegiadas no combate ao tráfico de drogas. Nesse cenário, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) atuará como braço armado da turma do Serviço Reservado (P-2) para entrar nos morros e favelas do Rio de Janeiro.
Para um coronel que chefiou o Serviço Reservado, é bem provável que Gilson Pitta promova majores e tenentes-coronéis para preencher todos os cargos de chefia na PM. “O processo de renovação já vinha sendo feito. É provável que agora, sem as opções dos Barbonos (grupo de oficiais ligados ao ex-comandante Ubiratan Angelo), ele tenha de recorrer aos mais jovens e acelerar a renovação da corporação. E os oficiais considerados linha-dura vão ganhar destaque”, avalia o coronel reformado.
Na opinião dos oficiais ouvidos por O DIA, a rotina da PM ofrerá mudanças radicais. Ações mais espetaculares cederão espaços a operações cirúrgicas. “É bem provável que o comando venha a aproximar a corporação da Subsecretaria de Inteligência e do Centro de Inteligência do Exército para aproveitar as informações e agir. Mas tudo com muita discrição”, especula. Pitta, segundo esses policiais, é o espelho de um ex-chefe, o falecido coronel Francisco de Paula Araújo, que foi corregedor da PM. De tão reservado, certa vez um praça se aproximou do oficial e perguntou se ele era o coronel Araújo. De pronto, respondeu: “O senhor é que está dizendo”.
OPINIÕES DIVIDIDAS
Entre os oficiais da PM há também os que são radicalmente contra o novo comando-geral. O major Wanderby Medeiros, exonerado da chefia do 4º Comando de Policiamento de Área (CPA) por militar contra a nova gestão, acredita que Pitta não tenha experiência suficiente para comandar a tropa. “Me preocupa o fato de ele nunca ter comandado um batalhão. Isso pode gerar dificuldade para dar ordens, principalmente por não ter apoio total dos policiais. Além disso, sempre trabalhou na inteligência e foi reprovado no curso de formação de oficiais, que cumpriu um ano depois do previsto”, alfineta Wanderby.
Para o coronel Paulo César Lopes, que acumula o posto de comandante do 14º BPM (Bangu) e do 2º CPA (Zona Oeste), a experiência de Pitta na Inteligência e de David na parte operacional é um “casamento perfeito”. “As áreas ficarão mais integradas. A postura será de hierarquia e disciplina, com serviço de mais qualidade para a população”, avalia.
Corregedoria busca tenente
Enquanto Pitta tentava acalmar os ânimos no Bope, quatro PMs da Corregedoria chegavam à casa do tenente Melquisedec Nascimento, presidente da Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas, dizendo ter ordem para levá-lo para prestar depoimento e depois, prendê-lo administrativamente. No entanto, Melquisedec não foi encontrado.
O chefe da 3ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, tenente-coronel Sérgio Alexandre Rodrigues do Nascimento, negou que haja ordem para prender o tenente. Segundo ele, a determinação era para que Melquisedec fosse prestar esclarecimentos sobre a divulgação em seu blog de fotomontagem em que coloca o governador Sérgio Cabral com chapéu e nariz de Pinóquio.
Ontem, Pitta anunciou mais duas mudanças. O tenente-coronel Fernando Príncipe foi exonerado do comando do Batalhão Especial Prisional (BEP) e transferido para a Diretoria Geral de Pessoal (DGP). O tenente-coronel Genésio Lisboa Neves Júnior, que era subcomandante da unidade, assumiu o posto. Outro transferido para a DGP foi o tenente-coronel Roberto Alves de Lima, que comandava o 6º BPM (Tijuca). Em seu lugar, assumiu, em caráter excepcional, o coronel Mauro Gonçalves Teixeira. Príncipe e Lima participavam do movimento por melhores salários.
UNIÃO DA TROPA ENTRA NO CARDÁPIO
Para tentar acabar com a crise na PM e, principalmente, com as manifestações contrárias a seu comando, o coronel Gilson Pitta Lopes vem tentando se aproximar de oficiais promovendo encontros informais nos batalhões. Ontem, acompanhado do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, o comandante participou de churrasco na sede do Batalhão de Operações Especiais (Bope), em Laranjeiras. Na sexta-feira, ele já havia dividido a mesa com oficiais do Batalhão de Choque, no Centro.
O chefe do Estado-Maior da PM, coronel Antônio Carlos Suarez David, também esteve no Bope, onde o grupo almoçou na companhia do comandante do Bope, tenente-coronel Alberto Pinheiro Neto, alguns oficiais e delegados. Uma equipe de O DIA esteve no batalhão, mas não foi autorizada a entrar.
Por telefone, Pinheiro Neto afirmou que não se tratava de um evento oficial e negou que o churrasco tenha sido idealizado por Pitta. “É uma visita de cortesia. A família do secretário (Beltrame) está no Rio e queria conhecer o Bope. Eu os convidei para almoçar e, como é de praxe, chamei também os meus chefes”, justificou.
No almoço no Batalhão de Choque, Pitta pediu aos oficiais que esqueçam a crise. As duas unidades de elite são consideradas fundamentais para o sucesso do novo comando
Policiais de patentes mais baixas do Bope e do Batalhão de Choque, no entanto, reclamaram. “Ele está tentando conquistar alguns oficiais para, assim, dominar a tropa toda e acabar com a crise. Mas está todo mundo revoltado”, afirmou um praça. (Andréa Uchôa)