Rio - A maior crise na área de Segurança Pública do governo Sérgio Cabral teve seu ápice ontem, com a exoneração do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Ubiratan de Oliveira Angelo. A gota d’água para a exoneração de Ubiratan foi a decisão sobre o destino do coronel Paulo Ricardo Paúl, que liderou passeata por aumento de salários no último domingo. Na sexta-feira, em vez de ser exonerado, Paúl foi transferido da Corregedoria Interna para a Diretoria Geral de Ensino e Instrução. O novo comandante-geral é o coronel Gilson Pitta Lopes, chefe do Serviço Reservado e da Inteligência da corporação. O chefe do Comando de Policiamento da Capital, coronel Antônio Carlos Suarez David, foi para o segundo posto na PM, o de chefe do Estado-Maior.
A queda de Ubiratan, depois de 392 dias no cargo, deflagrou novo embate entre oficiais da PM e o Palácio Guanabara: no fim da noite, 41 comandantes, diretores e chefes de seção — 21 deles, coronéis — anunciaram que hoje, às 9h, no Quartel General da corporação, vão colocar cargos à disposição de Cabral, deixando 17 batalhões e unidades especiais sem comando. O governo cogita chamar coronéis do Exército para ocupar os postos dos demissionários.
O anúncio da exoneração e do nome do novo comandante foi às 17h30, em entrevista coletiva do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, que criticou a postura de Ubiratan em relação às manifestações de oficiais. “O coronel deveria ter assumido a sua posição, tomado as rédeas do processo”, afirmou. Beltrame fez questão de ressaltar que policiais cometeram crime militar ao participar de manifestação. “Não vamos aceitar insubordinação”, avisou. Ele determinou abertura de Inquérito Policial Militar para punir os integrantes da passeata de domingo. “Não vamos admitir que façam reivindicações fora do tom, usando sites e blogs. Oito oficiais serão exonerados”, atacou, numa referência clara ao blog do ex-corregedor, Paúl.
BARBONOS
Pitta é fundador e signatário do Manifesto dos Barbonos — grupo de coronéis da ativa que brigava por melhores salários — e aliado de Ubiratan, chamado por ele de “chefe”. A passeata que levou à exoneração de Ubiratan foi uma iniciativa dos coronéis barbonos. Eles acusam Pitta de traição, já que o Serviço Reservado — comandado por ele — filmou a passeata. Um DVD com cenas e legendas com nomes de pessoas foi entregue à Inteligência do Palácio Guanabara na noite de segunda-feira. O DVD foi produzido pela equipe de Pitta. No anúncio do novo comandante-geral, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que o oficial já “renegou a participação no movimento”. Pitta, no entanto, admitiu ter participado, mas ressaltando que “o grupo tomou outro rumo”, o que provocou sua mudança de posição.
O governador Sérgio Cabral evitou qualquer contato com a imprensa. Ele não compareceu ao primeiro evento de sua agenda pública, a inauguração da nova cabine da PM, na Linha Vermelha — onde estava Ubiratan Angelo.
Reportagens de Adriana Cruz, Alfredo Junqueira, Christina Nascimento, Gustavo de Almeida, João Antônio Barros, Marco Antonio Canosa, Maria Inez Magalhães, Maria Mazzei, Paula Sarapu e Vania Cunha