Rio - Eram 6h30 quando policiais de sete delegacias especializadas chegaram à Rocinha. Diferentemente de outras ações, desta vez a operação não vazou. Prova disso foram as batalhas em pelo menos três pontos da favela. Próximo à Rua Dois, um homem foi morto num tiroteio com a Delegacia de Combate às Drogas (Dcod). Na parte alta, foi a Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) que encontrou um grupo armado. Um bandido ficou ferido, mas foi socorrido e sobreviveu. No total, foram seis presos, sendo dois menores. O mais intenso confronto foi no Valão, onde balas traçantes atiradas contra a polícia incendiaram uma loja de colchões.
Foram cerca de 20 minutos de intenso confronto entre um grupo de 15 bandidos e agentes das Delegacias de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) e de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). Os tiros atingiam o chão, paredes, lixeiras e motos estacionadas por ali. Abrigados próximo à loja, dois policiais quase foram atingidos. Os tiros, então, incendiaram o imóvel, que funciona no prédio usado pela própria polícia, em 2005, para matar o então chefão do tráfico local, Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi.
Com a demora dos bombeiros, que ficaram com medo de entrar na favela, o delegado da Drae, Carlos Oliveira, pediu apoio a alguns moradores, que tentaram controlar o fogo. Mas o local ficou todo destruído. “Agora é começar tudo de novo. Quem vive em comunidade já sabe como as coisas funcionam. Só espero que o seguro cubra essa tristeza”, desabafou o dono da loja, Eduardo Moraes Fonseca, 44 anos, estimando um prejuízo de R$ 70 mil.
Com o apoio da Polinter e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), os agentes ainda apreenderam drogas, armas, 18 motos e três carros: um Citroën C3, um Citroën C5 e um EcoSport. Na Cachopa, a DRFC estourou a casa de uma das mulheres de Nem, de três andares, com três suítes com hidromassagem, cinco TVs de LCD, piscina, piso de porcelanato e geladeira inox avaliada em R$ 6,5 mil.
Filho se desespera pela mãe
A intensa troca de tiros perto da mata, na localidade conhecida como Portão Vermelho, fez com que a doméstica Maria Eva Rodrigues (foto), 46 anos, não deixasse o filho de 11 anos ir para a escola. Os dois se esconderam no quarto e Maria Eva, deitada na cama, foi atingida por dois tiros. Da janela, o menino P. gritava por socorro. As paredes da casa ficaram com 26 marcas de tiros.
A polícia tinha informações de que o chefe do tráfico da Rocinha e bandidos do Complexo de São Carlos estavam escondidos em uma casa perto do barraco de Maria Eva. A doméstica levou um tiro nas costas e um nas nádegas e está internada em estado grave no Hospital Miguel Couto. Irmã e vizinha de Maria Eva, Lúcia Rodrigues passou 20 minutos tentando chegar à casa dela.
“Era muito tiro. Se eu saísse de casa, poderia ser atingida. Via meu sobrinho, gritando que a mãe dele estava morrendo, e não podia fazer nada!”, contou Lúcia.
Enquanto pedia ajuda, o menino conseguiu puxar a mãe de cima da cama e a protegeu no chão. Maria Eva tem três filhos. P. é o caçula e foi adotado. Seu estado de saúde é grave, porque perdeu muito sangue, mas não corre risco de vida.
PLANO DE ATACAR A CAROBINHA
Além das unidades especializadas, uma equipe da 35ª DP (Campo Grande) acompanhou a operação na Rocinha para checar informações de que traficantes dali — da facção Amigos dos Amigos (ADA) — estariam se preparando para invadir a Favela da Carobinha, na Zona Oeste, um dos territórios sob domínio dos milicianos da ‘Liga da Justiça’. Uma reunião para definir o plano de ataque teria ocorrido na madrugada de ontem, por volta das 2h30: “Como a milícia está desestruturada, traficantes querem retomar o controle e expandir sua área de venda de drogas lá em Campo Grande”, explicou o delegado Marcus Neves.
Para o diretor do DPE, a ação atingiu alguns dos objetivos esperados: “Vamos continuar a fazer pressão sobre eles, porque é aqui que estão escondidos o Roupinol (Rogério Rios Mosqueira) e outros líderes do São Carlos que mataram os jovens da Providência. Eles escaparam pela mata, mas voltaremos aqui em breve”, afirmou o delegado Allan Turnowski.
Colaboraram Ananda Rope (Brasília), Paula Sarapu, Ricardo Villa Verde, Tiana Ellwanger e Vania Cunha