Andréia Lopes e Maria Mazzei
Rio - O ex-banqueiro Salvatore Cacciola, 64 anos — preso na Penitenciária Petrolino Werling de Oliveira (Bangu 8) —, terá que prestar depoimento na sindicância instaurada pela Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap) para apurar denúncias de que teria saboreado lagosta e salmão encomendados em um restaurante da Barra da Tijuca. Segundo o secretário de Administração Penitenciária, coronel Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, o objetivo da investigação é saber se agentes estão aceitando suborno para garantir regalias aos presos.
“Se um preso tem poder aquisitivo e gosta de uma rabada e de um mocotó, vai comer rabada e mocotó, independente de ele ter poder aquisitivo ou não. O caso dele (Cacciola) nós entendemos que é pura ostentação, porque uma lagosta no presidio é algo que não combina muito”, afirmou o secretário Cesar Rubens.
Depois de saber da investigação, o governador Sérgio Cabral disse que o caso será “apurado a fundo”. “Vamos agir com dureza, até porque o que vale para Chico também vale para Francisco. E o governo não compactua com este tipo de coisa”, declarou. Após reportagem publicada por O DIA em 17 de agosto, uma vistoria de agentes Seap no presídio achou uma quentinha com restos de refeições que teria sido encontrada na mesma cela em que está Cacciola.
Segundo o secretário, no dia da vistoria, foram recolhidos três celulares, um radiotransmissor, um aparelho de MP-3 e R$ 11.129. No entanto, o registro de ocorrência 08211, da 34ª DP (Bangu) consta apenas a apreensão de três celulares e um radiotransmissor.
A Seap informou que o dinheiro não foi enviado à delegacia — ao contrário do que o secretário havia declarado ontem —, mas ao setor de custódia do presídio, para que os parentes dos detentos pudessem retirar as quantias respectivas a cada preso. Cesar Rubens disse que os R$ 11.129 estavam em quatro celas. Com Cacciola, segundo ele, não foi encontrado valor acima do máximo permitido, R$ 100.
Com o deputado estadual Natalino Guimarães (sem partido), havia R$ 65 e com seu irmão, o vereador Jerônimo Guimarães (PMDB), o Jerominho, os agentes de segurança encontraram R$ 150 a mais do que o tolerável. Outro preso em Bangu 8, o inspetor de polícia Charles Jardine guardava R$ 1.262. A Seap não informou os nomes dos demais presos e valores apreendidos com cada um.
O advogado de Cacciola, Carlos Eli Eluf, negou ontem que a lagosta tenha sido encomendada por seu cliente. Ele alegou que o ex-banqueiro é alérgico a frutos do mar e que, portanto, não poderia ter comido a iguaria.
“Ele não vai comer lagosta ou salmão enquanto os outros 33 presos com quem divide a cela almoçam arroz com feijão, porque iria arrumar uma animosidade tão grande que até poderia ser morto. O fato de manter um cardápio refinado dentro da cela traria risco para a sua vida. Isso é impossível”, afirmou Eluf, lembrando que Cacciola costuma receber alimentos da família em dias de visita, mas que nunca teria recebido salmão ou lagosta. Para o advogado, o pedido do prato requintado prejudicaria a imagem de seu cliente.
Recursos
O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) começou a analisar ontem o pedido da defesa de Cacciola para anular os três processos que o ex-banqueiro responde por crimes financeiros. A decisão só sairá após avaliação do ministro Paulo Gallotti, que pediu para estudar melhor os casos.
Hoje, o advogado de Cacciola em Mônaco, Frank Michel, vai denunciar o Brasil na Corte Européia alegando que o País teria descumprido acordo de extradição firmado com o Principado de Mônaco. Ele argumenta que seu cliente não poderia ter sido preso ou julgado por outro fato além do que motivou a extradição: o crime de gestão fraudulenta, que tramita na 6ª Vara Federal Criminal do Rio. O ex-banqueiro tem mais dois mandados de prisão que correm na 2ª e na 5ª Varas Federais Criminais.