Rio - Laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), divulgado ontem, confirma que o cabo William de Paula e soldado Elias Costa Neto, do 6º BPM (Tijuca), mentiram ao afirmar que houve confronto com bandidos que seriam responsáveis pelo tiro que matou o menino João Roberto Amorim Soares, domingo, na Tijuca. Peritos constataram que o Palio Weekend, onde estava o garoto, o irmão Vinícius, de nove meses, e a mãe, Alessandra Amorim Soares, foi atingido por 17 tiros disparados de onde estavam os PMs. Onze balas entraram pela lateral esquerda e seis, pela traseira do veículo, provocando 51 perfurações de estilhaços dentro do carro.

Com 36 páginas e 23 fotos, o documento indica ainda que foram encontrados no carro 16 fragmentos, todos entregues ontem ao ICCE para exame. O material será analisado para saber se o calibre das balas é compatível com as armas usadas pelos PMs. No entanto, como os pedaços são muito pequenos, o delegado Walter Alves de Oliveira, titular da 19ª DP (Tijuca), acredita que será difícil chegar a algum resultado conclusivo.
De acordo com o laudo, as três marcas de tiros na vidraça dianteira foram provocadas por estilhaços das balas que entraram por trás. Uma delas teve força suficiente para atravessar o vidro. Segundo os peritos Nilton Thaumaturgo Rocha Júnior e Hélio Vicente Teixeira, a borda da película escura do pára-brisa estava voltada para fora do veículo, o que levou à conclusão de que essa perfuração foi provocada pelo disparo feito por trás do Palio.
Para a polícia, o laudo, associado às imagens das câmeras dos prédios da Rua General Espírito Santo Cardoso, que gravaram as cenas do crime, comprova que o carro da família não foi atingido em fogo cruzado. “O laudo associado ao vídeo são provas técnicas muito fortes. O texto não diz que houve troca de tiros. É o delegado que diz que não houve troca de tiros. A linha de investigação está traçada desde o primeiro dia. Eu já tenho o meu convencimento”, disse Walter Oliveira, que ainda pretende ouvir a mãe de João Roberto antes de encerrar o inquérito.
Para fazer uma perícia mais minuciosa no Palio, o carro foi levado para a 19ª DP e teve os bancos retirados. Os peritos relataram ainda que a viatura dos PMs foi retirada da posição original e o local não foi isolado adequadamente, permitindo que as pessoas circulassem pela área. Quando os especialistas chegaram para examinar a cena do crime, apenas o cabo William estava lá.
Um outro laudo, do Instituto Médico-Legal (IML), indica que o ferimento na cabeça de João Roberto, provocado por estilhaços, tinha três centímetros, além de escoriações de três milímetros no braço e próximo ao glúteo, ambas do lado esquerdo.
De manhã, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, esteve na 19ª DP, e voltou a lamentar a ação dos PMs. “Não podemos garantir que não terão outras mediante o universo de atuação da PM. Temos muito o que caminhar. Não minimizo o erro e a tristeza, mas a PM está sendo melhorada. A atuação foi desastrosa. Foram 17 disparos no carro e o calibre não muda nada. A conseqüência foi muito mais desastrosa do que saber a munição utilizada. Não temos direito de errar”, disse Beltrame.
O secretário defendeu que o 6º BPM (Tijuca) mantenha atendimento psicológico a seus policiais, prática que foi extinta em maio, como O DIA noticiou quarta-feira. Beltrame manifestou intenção de se encontrar com os pais de João Roberto.