Rio - Uma indústria que movimenta por ano cerca de R$ 44 milhões. Esse é o faturamento das Kombis e vans da Favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá, de acordo com depoimento prestado ontem na CPI das Milícias por Getúlio Rodrigues, presidente da cooperativa de transporte alternativo da comunidade. Segundo o empresário — investigado pela Secretaria de Segurança por integrar a cúpula paramilitar local —, a campanha do vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho (DEM) recebeu sua ajuda financeira em 2004. Getúlio disse que, dois anos depois, defendeu a candidatura do ex-secretário de Segurança Marcelo Itagiba (PMDB) e afirmou que hoje apóia Marcelo Crivella (PRB) para prefeito.
A contabilidade da cooperativa de Rio das Pedras foi apresentada por Getúlio levando-se em conta as lotadas legalizadas (a polícia estima que outras 500 vans clandestinas circulam na região): são 339 vans que transportam, cada uma, 250 pessoas por dia, cobrando R$ 2 por passageiro. A cada 24 horas, a movimentação financeira da cooperativa chega a R$ 170 mil, o que totaliza mais de R$ 44 milhões por ano. “É um número impressionante”, afirmou o presidente da CPI, deputado Marcelo Freixo.
ATAQUE A NADINHO
O presidente da cooperativa disse que se mudou do Rio com medo do vereador Nadinho. Ele afirmou que, desde o assassinato do inspetor Félix Tostes — do qual Nadinho é acusado de ser o mandante —, recebe ameaças do parlamentar. “Ele (Nadinho) não tem mais apoio de ninguém lá. E eu cheguei a doar duas mil camisas para a campanha dele”, disse.
Outro depoente na comissão que atacou um candidato foi Marco Aurélio França Moreira, o Marcão, investigado por integrar milícia em Gardênia Azul. Suplente de deputado federal, ele levou registros de ocorrência que fez acusando o sargento bombeiro Cristiano Girão, que concorre a vereador pelo PMN, de andar armado em Gardênia e lhe fazer ameaças constantemente. No registro de 2004, Marcão conta que, por não apoiar a campanha do militar na época, ouviu dele que “quem cruzasse no seu caminho seria morto, principalmente sendo crioulo sujo”.
TV clandestina e de graça
Sorridente e sem o menor constrangimento, Marcão admitiu que tem ‘gatonet’ em casa, mas jogou a responsabilidade pelo serviço naquele que chama de seu “adversário” na região. Segundo ele, a central clandestina de TV a cabo de Gardênia Azul fica na área do bairro comandada por Cristiano Girão. Lá ainda teria a exploração do gás, de transporte alternativo e segurança privada, tudo com o consentimento do bombeiro.
Mesmo assim, Marcão ainda ironizou a situação e contou que não paga nem pelo ‘gatonet’: “Por eu ser um líder comunitário. Acha que vão cobrar de mim?”, indagou, em tom ameaçador.
Para a CPI, Marcão ainda relatou um episódio da campanha de 2004 quando montou um palanque para apoiar Rogério Bittar (PSB) em Gardênia Azul. Ele conta que Girão tomou o microfone dele e ameaçou todas as pessoas presentes que não pretendiam votar nele.