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5/7/2008 18:43:00

Máfia dos combustíveis: golpe é maior na Baixada

Quadrilha que domina 35 postos de gasolina diferencia regiões por poder aquisitivo e lesa clientes com produto com só 15% de pureza

Leslie Leitão


Rio - “Já cansei de falar. Os clientes aí da Baixada, você xinga, trata mal e eles vão embora pedindo desculpa, achando que ‘tão’ errados. Na Tijuca é diferente. O pessoal sabe os direitos que tem.” O discurso preconceituoso é de Cláudio Seixas Neto, um dos seis integrantes da máfia de adulteração de combustíveis presos quinta-feira. Na conversa telefônica — gravada com autorização judicial —, ele ensina a filosofia da quadrilha que domina 35 postos no Rio de Janeiro, em Niterói e na Baixada Fluminense. Quanto menor o poder aquisitivo da região, pior a qualidade do produto à venda.

Durante quatro meses, a Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) investigou a ação de um dos grupos que lesam clientes e constatou misturas que em alguns casos — como em Mesquita e em Nilópolis, por exemplo — chegam a níveis de até 85%, ou seja, apenas 15% do produto é gasolina pura. Como em um dos postos interditados pela própria delegacia, em maio, quando foi deflagrada a primeira fase da ‘Operação Rei Deposto’.

Em geral, a máfia costuma usar solvente, já que os impostos sobre o produto são bem mais baratos. Essa mistura, no entanto, é menor em outros postos, como na Tijuca e no Maracanã, administrados pela mesma quadrilha. “Eles fazem essa distinção de público pois acreditam que, na Baixada, o risco de uma ação judicial é menor. Acham que o cliente é menos exigente, tem menos chance de reclamar deles”, explica o delegado Eduardo Freitas, titular da DDSD.

Ao longo da investigação, os agentes detectaram uma série de crimes praticados e comentados com orgulho em conversas do grupo. O mais comum é o da adulteração de combustível. Na maioria dos casos, ela é feita na quantidade de álcool misturado à gasolina. Os 25% permitidos são sempre ultrapassados: chega-se em média a 32%. Na Baixada, o abuso é bem maior.

Outra modalidade de golpe é praticada no momento do abastecimento. A chamada ‘bomba baixa’ engana o consumidor, fornecendo em média 10% a menos do que ele pagou. “A pessoa compra 20 litros, mas apenas 17 ou 18 litros saem da bomba”, explica o delegado.

As gravações mostram práticas de sonegação fiscal — na compra as mercadorias sem nota fiscal —, além de furto de água e de luz, o conhecido ‘gato’. Durante a operação de quinta-feira, o próprio advogado se revoltou com o líder da quadrilha e dono dos postos, Jéfferson dos Santos Vianna: “O hidrômetro do (posto) Nhá Chica (Maracanã) foi pego em flagrante roubando água, tá? Seu funcionário aqui, o Valdez, cordialmente está sabendo. Todo mundo tá sabendo. Menos eu. Sou igual a corno, último a saber”, reclama o advogado, identificado como ‘doutor Birman’.

No mesmo dia, Aline de Oliveira Ferreira, outra presa, pede que Renata, sua subordinada, passe uma cópia do mapa de um posto. Com uma ressalva: “A medição, você bota lá embaixo dos tanques. Apaga essa medição com o corretor antes de passar o fax”, recomenda, tentando enganar a polícia.

Até funcionários se espantam

Em determinadas conversas, os próprios empregados de Jéfferson reclamam da ganância do patrão, que exige mistura irregular de combustível em quase todas as bombas. Em um caso, outro preso, Fernando de Barros Vianna, se mostra preocupado com a adulteração, especialmente no fornecimento a clientes importantes, como os Correios. “É um posto que tem combustível caro e uma clientela que confia no produto. O Três Amigos é um posto que todo mundo olha pra ele e vê como um posto decente, correto, tem confiança para abastecer lá. Posto que tem contrato com o Correios”, diz ele.

As irregularidades são tantas que fica praticamente impossível manter um mínimo de qualidade. Em uma conversa do dia 5 de maio, um funcionário se mostra assustado com a péssima qualidade do produto. “Eu tô com a amostra aqui do álcool que o Ronaldo ia bombear numa garrafa PET transparente. Caraca, o bagulho é marrom! E não tem cheiro”, espanta-se.

A organização e os tentáculos da quadrilha serviam para que seus integrantes conseguissem driblar as fiscalizações com facilidade: em muitos casos, eles sabiam quando elas aconteceriam.

Uma preocupação dos agentes da DDSD é com o vaivém de combustível, transportado dentro de Kombis pela quadrilha: “Eles levam 700, 800, até 1.000 litros por vez. Um acidente num carro desses explode tudo que estiver perto”, afirma um agente da DDSD.

DE SUBORNO PARA EVITAR CORTE DE LUZ ATÉ DICAS PARA REMENDAR LACRE ROMPIDO DE BOMBA

As gravações telefônicas feitas pela Polícia Civil mostram com claridade das irregularidades cometidas pelo bando. Em 7 de maio, Jéfferson mostra que sabe até os dias das fiscalizações:

Jéfferson: Chama ele (Daniel) aí. Tu tem que tirar, nós temos que levar três mil litros lá pro Gramacho por causa da fiscalização, entendeu? Mas ele deve estar cansado, a gente chama ele mais tarde.
Funcionário: Com certeza. Ele madrugou lá. Falou que ia pra casa dormir.
Jéfferson: O fiscal só vai na sexta-feira. Hoje é quarta, né? Dá tempo, então, de a gente pensar o que fazer.

Para tentar enganar os policiais numa eventual escuta, substituíam a palavra ‘combustível’ por ‘comida’.
Homem: Se eu misturar a comida lá do Paris, que é francesa, com outras que a gente tem nesses restaurantes aí de segunda linha, não fica legal. Tem que acabar o estoque do restaurante 2 (bomba adulterada) pra poder botar lá e vender comida francesa, entendeu?
Jéfferson: Mas você está com problema de gasolina? Homem: Não. Até pra eu poder levar eu tenho que deixar ficar sem (combustível) mesmo, porque lembro que já fizemos isso uma vez e azedou a comida toda.

A ameaça de corte de luz no posto Pedrozo faz funcionário avisar ao patrão que dará uma ‘caixinha’ ao fiscal.
Funcionário: Vou dar uma caixinha, soltar um negocinho aqui no Pedrozo pro cara não cortar a luz da gente, tá?
Jéfferson: O que houve?
Funcionário: A conta não está paga, venceu dia 10/4, conta de R$ 2 mil e pouco. Vou desenrolar com o rapaz.

Em posto de Niterói, homem identificado como Felipe fala com Jéfferson sobre a presença de um carro da polícia e a necessidade de falar sobre isso com capitão PM amigo de um conhecido da quadrilha.
Felipe: Será que o Marcelo não vem lá do outro lado junto com o outro Marcelo aí de madrugada resolver esses negócios todos aqui, não?
Jéfferson: Não, filho. A viatura está dentro do posto.
Felipe: Tem que ver se de repente a viatura é daqui daquele batalhão, que o capitão é amigo do Marcelo, entendeu? Ali mesmo consegue ajudar nisso aí. O Marcelo que tem contato com eles.

Aline manda o funcionário Maciel tirar todo o uniforme do posto para escapar de um cerco da DDSD.
Aline: Maciel, você não está de uniforme não, né?
Maciel: Só com a calça.
Aline: Tem que tirar, meu bem, não pode ficar com uniforme nenhum no posto.
Maciel: Tá, eu vou tirar o uniforme todo, vou ficar só de bermuda aqui com o Marcelo, fingindo que sou amigo dele então, tá?!

Na corrida contra a fiscalização da DDSD, em 7 de maio, Marcelo Ribeiro da Cunha, preso quinta-feira, dá a ordem para esconder o combustível adulterado.
Funcionário: O Fábio me avisou que leu que os caras estão fechando os postos e estão vindo pra Niterói.
Marcelo: Quantas bombonas tem aí?
Funcionário: Três.
Marcelo: Enche elas aí do tanque 2 (combustível adulterado) e guarda lá naquela toca. Fecha bem a porta.
Marcelo explica para Nazareth Oliveira Gomes, também presa, como fazer para tentar remendar o lacre violado de uma bomba.

Nazareth: (Inaudível) falou que você sabe tirar lacres.
Marcelo: Arrebenta, tira, depois tu dá uma esquentada lá onde tu arrebentou e gruda o lacre de novo. Aí bota bem por baixo, entendeu? Pega um isqueiro aí, dá uma queimadinha na ponta, vai ver que ele vai começar a derreter. Aí tu gruda um no outro, entendeu?
Nazareth: Esses lacres aí não é igual aqueles que dá pra colar, não.

Aline recebe a ligação da funcionária identificada como Rose, que mostra como as fiscalizações eram raras.
Rose: Aline, não tem número de DP não. Está escrito assim: DD, duas letras D, uma letra S e outra D. Aí tem o número do carro, 67885. Eles querem nota fiscal, o livro...
Aline: Peraí.

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