Mal sai a PM, o crack volta
Um dia após denúncia de O DIA usuários da droga da morte exibem o vício nas ruas do Catete
Andréa Uchôa
Rio - Logo após a polícia inibir o consumo de crack por dois dias nas vias do Catete, Zona Sul do Rio, usuários da droga voltaram à Rua Pedro Américo, a 100 metros da delegacia do bairro (9ª DP). Era 9h45 de domingo e a Cracolândia — mostrada ontem com exclusividade por O DIA — já estava a todo vapor. No dia em que a denúncia foi publicada, equipe de reportagem voltou ao local e flagrou moradores de rua, muitos menores de idade, consumindo a ‘droga da morte’ em plena luz do dia, sem qualquer repressão.
“Eles não têm hora para se drogar. Não se preocupam nem com a polícia, quem dirá com o grande movimento de pessoas durante o dia”, disse uma moradora.
Às 9h20, o menino W., de 12 anos, demonstrava estar desesperado para fumar uma ‘pedra’ — como chama a droga —, pois percorria a rua procurando sobras de crack pelos cantos das calçadas e no meio-fio. Como não encontra nada, ele pede esmolas nas redondezas. Às 9h40, volta com a droga e senta no batente de uma loja para fumá-la.
“Fumo porque dá onda e tira a fome. Como nem sempre temos dinheiro para comer, é mais fácil fumar para não sentir a barriga vazia”, diz W., que usa crack desde os 7, quando fugiu de casa, em Japeri, para viver na rua.
Com apenas 12 anos, ele já não tem perspectiva de futuro. Perguntado sobre o que queria ser na vida, ele responde: “Nada. Se um dia eu parar de fumar, eu penso nisso. Hoje quero fumar”.
Informado sobre a Cracolândia, o comandante interino do 2º BPM (Botafogo), major Gláucio Moreira, determinou que uma viatura ficasse na Pedro Américo na sexta e no sábado. Com isso, a Cracolândia não funcionou, mas ontem estava lá de novo. “Temos que fazer um trabalho de inteligência para pegar o traficante porque o usuário é fácil”, disse. Já a 9ª DP (Catete) afirma que também está tentando identificar os traficantes para prendê-los.
CONSUMO INCOMODA VIZINHOS
O desespero de conviver há cerca de seis meses com a Cracolândia leva muitos moradores a pensar em se mudar. “Tenho vontade de sair daqui, porque além de desvalorizar nossos imóveis e nos amedrontar, ainda temos que ver crianças se matando com essa droga”, diz um morador.
Outros, como a comerciante Danielle de Sousa, 27 anos, e a síndica de um prédio na Pedro Américo tentam soluções para o problema. “Já estou buscando informações para saber se tem como entrar com ação contra a prefeitura para obrigá-la a tomar uma atitude”, afirma Danielle.
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