Daniela Dariano e Josie Jerônimo
Rio - O Rio parece ter sido pego desprevenido pelo verão. Praias imundas, postos de salvamento interditados e operação para retirar chuveiros clandestinos rivalizaram com o calor escaldante de ontem. A máxima na cidade foi de 37,4 graus.
Apesar de terem ficado lotadas a semana inteira, quase todas as praias cariocas estão impróprias para banho pelo menos até hoje, quando o tempo promete esquentar mais: a previsão é de máxima de 38 graus sem chuva, segundo o Inmet. As únicas consideradas balneáveis são Praia Vermelha, Arpoador, Recreio, Grumari, Prainha e Barra, a partir da Praia do Pepê. A Feema divulgará hoje novo boletim sobre as condições para sábado.
Apelidada de Princesinha do Mar, Copacabana teve ontem seu dia de gata borralheira. O balanço das ondas embalava algas, panos e embalagens de todo tipo. A auxiliar de creche Cristiane Batista da Cruz, 30 anos, moradora do Morro do Borel, Tijuca, apesar de temer doenças, liberou o banho de mar para os três filhos, de 6, 7 e 10 anos: “Está muito suja, mas é a única diversão das crianças”.
TURISTAS ASSUSTADOS
O argentino Matias Zavalza, 32, esteve várias vezes no Rio, mas nunca tinha visto Copa tão suja. Mesmo assim, arriscou mergulho entre plásticos na altura do Posto 5. O casal de administradores capixabas Vanusa Rosado, 36, e José Regattieri, 40, não teve a mesma coragem. Hospedados na Av. Atlântica, eles desceram com roupa de banho, mas desanimaram com o cenário. “Sem possibilidade. É triste. Eu vi um grupo de turistas estrangeiros e imagino a impressão que terão do nosso País”, lamentou José.
Embora a Feema atribua a impropriedade das águas às chuvas de semanas atrás, pedaço de plástico boiando no mar com o nome da empresa que fez a queima de fogos do Réveillon denunciou a contribuição da festa de fim de ano para a imundície.
“Não adianta o catador passar cinco vezes se as pessoas jogam 20 vezes. Se não choveu, não teve ressaca e estiveram lá milhões de pessoas, só pode ser resto da festa que a Comlurb não deu conta”, disse o secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc.
O índice de coliformes fecais está acima do tolerado em quase todas as praias. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente alega que a Cedae deve coibir o esgoto clandestino que contamina o mar. A Cedae, por sua vez, diz que lhe cabe sanear o esgoto legal e atuar só em casos de denúncia ao ser acionada pela Feema.
CUIDADO: AREIA E ÁGUA SUJA: RISCO DE CONTAMINAÇÃO
A pele e o aparelho digestivo são as principais vítimas potenciais de água e areia de praia contaminadas. Em caso de infecções intestinais por ingestão de microorganismos, o primeiro sintoma é a diarréia. Também há risco de contaminação via oral de hepatite A, que é transmitida por fezes de animais, como cães e gatos.
Através da pele, é possível contrair verminoses, diz a chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital do Fundão, Márcia Ramos: “As larvas penetram na pele sã. A dica é não ir à praia. Escolha uma praia que esteja mais limpa, geralmente onde o mar é mais batido, que limpa mais a água”.
SEM DUCHAS E POSTOS REFORMADOS
Dois barraqueiros foram detidos depois que funcionários da Cedae flagraram ‘gato’ na rede de água que abastecia as tendas e três chuveirinhos próximos ao número 3.000 da Avenida Atlântica durante a Operação Gato Bronzeado. Os proprietários da Barraca do Sérgio foram liberados à tarde depois que peritos da Polícia Civil concluíram que o gato era antigo e que era impossível atribuir a autoria do crime apenas à barraca, pois os chuveirinhos eram usados por outras pessoas.
Outras três ligações clandestinas de água foram detectados em Copa. Os funcionários da Cedae quebraram parte do calçadão para encontrar as conexões. O trabalho foi interrompido para não causar ainda mais constrangimento na orla com os buracos. À tarde, três chuveiros foram desligados. Os outros cinco abastecidos por ‘gatos’ seriam desconectados à noite. Segundo o presidente da companhia, Wagner Victer, a Cedae sugeriu à prefeitura parceria para cassar a licença dos barraqueiros com ‘gato’.
Ontem, o banhista foi quem pagou o pato: sem chuveiro e sem posto. Prometida pela prefeitura para 21 de dezembro, a inauguração de alguns postos reformados, com banheiro e ducha, ainda não aconteceu. No posto 9 de Ipanema, vazamento fez com que a área fosse interditada.
A Rio-Urbe atribuiu a demora ao intenso movimento do Réveillon, que atrapalhou os trabalhos. A entrega dos postos em atraso foi adiada para o fim da primeira quinzena de janeiro. Os demais continuam com prazo para fim das obras em março. Mas o 8, também em Ipanema, estava fechado e sem sinal de obra. Grade enferrujada, porta e escadaria quebradas e entulhos no local não dão esperança para banhistas.
Ainda assim, o secretário Estadual de Ambiente, Carlos Minc, está confiante. Usará os postos reformados como ponto para instalação de placas sinalizadoras sobre qualidade das praias e das areias. Mas só em dois meses. Ou seja: só para o próximo verão.
FIM DO FEDOR ATÉ DEZEMBRO
Depois de um café-da-manhã com o governador Sérgio Cabral e o vice, Luiz Fernando Pezão, perto da elevatória da Cedae em Copacabana, Wagner Victer foi desafiado a acabar com o cheiro ruim que vem da estação no Posto 5.
O governador reclamou com Victer que o mau cheiro já o incomodava quando jogava bola na praia, há 30 anos. A Cedae vai abrir, em fevereiro, licitação para contratar empresa de engenharia e promete acabar com o desconforto até dezembro. Segundo Victer, a operação de captação dos gases é simples e nem será tão dispendiosa aos cofres públicos.