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30/10/2007 02:00:00

Milhões de lucro com as ‘balas’

Traficantes negociam até 40 mil comprimidos de ecstasy para raves como a de Itaboraí, onde polícia interditou sítio

Rio - Traficantes de drogas sintéticas chegam a negociar de 30 mil a 40 mil comprimidos de ecstasy às vésperas de festas como a Tribe Rio, realizada no fim de semana em Itaboraí, de acordo com investigadores que calculam o faturamento dos criminosos entre R$ 750 mil e R$ 1 milhão. O lucro é semelhante ao obtido pelos organizadores de grandes eventos de música eletrônica, segundo agentes. Ontem, o sítio Happy Land, onde aconteceu a rave, foi interditado por 30 dias, para a conclusão das investigações sobre a morte do estudante Lucas Francesco Amêndola Maiorano, 17 anos.

Policiais estiveram no local e encontraram pequena quantidade de cocaína e papelotes vazios em um banheiro químico, além de vestígios de consumo exagerado de bebidas alcoólicas. Pelos canteiros do terreno, muitas garrafas de uísque, vinho e vodca. Também havia palitos de pirulito espalhados pelo chão e centenas de garrafas de água — artifícios para evitar overdose e hidratar o corpo. Na comunidade oficial da rave no Orkut, pessoas que estariam no mesmo grupo de Lucas comentaram que ele teria consumido 10 comprimidos de ecstasy.

TRÁFICO E HOMICÍDIO

Segundo o delegado Antônio Ricardo Lima, da 71ª DP (Itaboraí), a Directa Produções, empresa que promoveu a Tribe Rio, e a Guepardo Vigilância, responsável pela segurança do evento, podem ser indiciadas por não reprimir o tráfico e o consumo de drogas. A pena é a mesma para o crime de tráfico — 5 a 15 anos de prisão. O delegado também não descarta a possibilidade de indiciá-las por homicídio.

Segundo ele, os produtores da festa tinham todas as autorizações e cumpriram as exigências de uma resolução da Secretaria de Segurança para a realização de eventos. No entanto, no Orkut, freqüentadores disseram que não precisaram apresentar documentos, que não houve revista e que até os seguranças estariam vendendo drogas.

“Quero saber se os organizadores da festa e os seguranças foram coniventes. Quem não reprime o tráfico e o consumo exagerado também responde por isso. É associação. Pelo que parece, o consumo foi praticamente liberado e a segurança não deteve ninguém e não fez nenhuma apreensão”, disse ele, que espera o resultado do exame toxicológico feito no corpo de Lucas, que deve ficar pronto em 10 dias. A polícia pedirá as imagens do circuito de câmeras do sítio.

O dono da Guepardo Vigilância, Cristiano Lobo, prestou depoimento ontem. Ele afirmou que 380 seguranças trabalharam em dois turnos e que nenhum dos vigilantes flagrou freqüentadores usando entorpecentes no Happy Land. Cerca de 30 funcionários ficaram encarregados da revista na entrada do sítio. Segundo ele, para burlar a segurança, muitas mulheres servem de ‘mula’, levando ecstasy para a festa.

“Depois da revista, é difícil identificar os usuários.Eles já chegam como vocês viram aí. Muitos bebem antes de entrar e as mulheres levam os comprimidos escondidos na vagina. Quando a gente se aproxima, eles jogam o comprimido fora ou engolem”, contou Cristiano.

Na manhã de ontem, o carro-pipa que refrescou o público ainda estava no terreno, de cerca de 750 mil metros quadrados. Um caminhão recolhia os engradados de cerveja.

Acidentes e intoxicações

Dois dos 18 jovens que receberam atendimento médico depois da rave continuam internados: Felipe Sardenberg Antunes, 19 anos, que foi atropelado por uma carreta e teve traumatismo craniano; e Benjamim Gonçalves Rodrigues, 21, internado no Hospital das Clínicas de Teresópolis inconsciente,com quadro grave de desidratação e crise convulsiva.

Além de Lucas, que não resistiu, os outros freqüentadores tiveram intoxicação causada por substâncias nocivas. A polícia também investiga se o médico Raphael dos Santos Maia, 26, bateu com o carro em um caminhão depois de deixar a festa no Happy Land. Ele teria cochilado ao volante e morreu na hora.

O dono do sítio, José Roberto Vidal, prestou depoimento e disse que apenas alugou o espaço para a Directa Produções. Em contrato, a empresa assume as responsabilidades civis e criminais com a festa.

Três amigos de Lucas, que estavam com o estudante na rave do fim de semana, devem depor. O dono da Directa, Pedro Schmitt, também terá que prestar esclarecimentos. A empresa já fez outras festas de música eletrônica e é proprietária dos bares Devassa no Flamengo e em Ipanema.

Força-tarefa contra abusos

Em abril, a Secretaria de Segurança Pública lançou o projeto Noite Legal, uma espécie de força-tarefa para fiscalizar as irregularidades em casas noturnas e locais de eventos em todo o estado. A fiscalização das empresas fica a cargo da Polícia Federal, para impedir, por exemplo, a comercialização de produtos ilícitos e a venda de bebidas e cigarros a menores de idade.

Entre as medidas previstas no Noite Legal estão o planejamento pela Polícia Militar de patrulhamento nas áreas externa das boates e locais das festas, bem como a criação de um fórum bimestral com organizadores de eventos. Nos encontros, seriam apontadas as principais necessidades aos representantes dos batalhões e delegacias responsáveis pela área do evento. A Secretaria de Segurança pretende promover cursos e palestras e produzir cartilhas para a divulgação das regras aos empresários do ramo noturno.

Em agosto, a equipe do Noite Legal multou carros e prendeu flanelinhas no entorno de boates em Ipanema. Em setembro, o grupo encontrou em quatro boates alimentos estragados, uso irregular de área pública e cobrança indevida de consumação mínima.

ORKUT: SEGURANÇAS VENDIAM DROGAS

Jovens que estiveram na rave de Itaboraí disseram, na comunidade oficial da festa no Orkut, que seguranças do evento também vendiam drogas para os freqüentadores. De acordo com relatos dos jovens, não existia nenhum esquema de revista para quem chegava com mochilas.

Muitos deles afirmaram que não foi preciso nem mesmo comprovar maioridade . “Nem pediram meus documentos e olha que eu tenho cara de novo”, contou um internauta.

Um jovem identificado como Raphael Tink relatou ter visto o momento em que o carro do médico Raphael dos Santos Maia bateu em um ônibus. Ele disse que, em vez de ajudarem o rapaz, algumas pessoas que saíam da festa aproveitaram para saquear os pertences da vítima. “Assim que ele bateu e morreu, muita gente entrou no carro para pegar a carteira dele, a pasta também, que dava para pegar. Isso é o nosso povo. Antes era o choro pela
perda, agora é assalto”, observou.

Os freqüentadores também debateram a morte de Lucas Amêndola. A maioria atribuiu a morte do rapaz ao consumo ininterrupto dos comprimidos. “O cara tomou 10 balas de uma vez só. Um parceiro meu falou que viu que o cara tomou isso tudo de bala ao mesmo tempo. Pediu para morrer, né”, comentou um dos internautas que participaram da rave.

Muitas das pessoas que estiveram na festa apontaram falhas na organização do evento. A maior reclamação foi a falta de água. O estoque de bebidas acabou no meio da rave e centenas de pessoas ficaram no sol escaldante sem ter como se hidratar. “Comentei com um amigo que ia dar m. quando faltou água e várias ambulâncias começaram a sair da festa”, afirmou Vitor Motta.



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