Adriana Cruz, Maria Inez Magalhães e Vânia Cunha
Rio - Para a polícia, os lucros dos negócios milionários da milícia ‘Liga da Justiça’ seriam a principal fonte de renda do policial civil André Luiz da Silva Malvar, genro do vereador Jerônimo Guimarães, o Jerominho. Malvar estava foragido em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Em carta de autoria atribuída ao irmão de Jerominho, o deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM) — apreendida pelos agentes domingo —, Malvar é chamado de ‘Claudinho’, nome que usava na região. Foragido da Justiça, é orientado a abrir uma cafeteria, buscar ‘amizade na política’ e com integrantes da Igreja Batista.
“Vamos investigar a lavagem de dinheiro”, afirmou Claudio Ferraz, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). O deputado nega que tenha escrito a carta. “Está havendo uma perseguição covarde e política. Não mandei nenhuma carta. Isso é cascata. Alguém escreveu isso para me prejudicar mas não vão conseguir”, afirmou Natalino, irritado com as novas acusações da polícia.
Para o chefe de Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro, a carta pode servir como elemento para um futuro processo no Conselho de Ética da Assembléia Legislativa. “Ele pode responder por quebra de decoro e isto também será levado em conta na CPI da Milícia”, analisou.
O presidente da CPI, Marcelo Freixo, do PSOL, informou que vai pedir uma cópia da carta. Segundo ele, Natalino será convocado para depor na comissão sobre o caso. “Ele já é réu em processo na Justiça e terá de nos dar explicações”, antecipou. Quinta-feira, a CPI se reúne para debater futuros passos das investigações.
Outros documentos apreendidos com Malvar serão investigados, como um laptop, uma agenda e um celular. O corregedor da Alerj, deputado Luiz Paulo (PSDB), disse que vai aguardar as medidas adotadas pela CPI das Milícias. “Cabe a CPI investigar tudo que envolve milícias, até porque a comissão tem mais poderes do que a corregedoria”.
Malvar chegou ontem ao Rio num vôo comercial às 16h10, no Aeroporto Tom Jobim. Ele ficará preso em Bangu 8. Na delegacia, ficou irritado ao ser colocado próximo a um cartaz da unidade. “Não sou vagabundo. Não tenho nada com a milícia”, defendeu-se.
MEDIDA ANTI-SUICÍDIO: PRESO DORME QUASE NU
Descrito como frio e calculista, André Luiz da Silva Malvar passou a noite de domingo na carceragem da Polícia Federal do Rio Grande do Norte só de sunga. A medida foi para impedir que o policial cometesse suicídio, fazendo uma corda com a própra roupa.
Segundo os investigadores, Malvar chorou bastante durante a noite. Frente a frente com os agentes federais e da Draco, Malvar chegou a perguntar se ‘teria idéia’, o que para os policiais significaria uma espécie de acerto para escapar da prisão, mas não chegou a oferecer a quantia.
Na opinião dos agentes da Draco, Hellen Patrícia Guimarães, mulher de Malvar, que foi monitorada por agentes no vôo Rio-Natal e seguida por quatro carros e uma moto, tinha plano para despistar quem a seguisse.
Antes de chegar ao condomínio de luxo, no qual pagava aluguel de R$ 1.300, ela deu uma volta no quarteirão e saltou, mesmo grávida de seis meses e carregando mala pesada, a 100 metros de onde morava.
Ao ser preso, Malvar alegou ser policial e que iria se entregar, embora estivesse tirando carteira de habilitação em Natal, o que para os policiais demonstra a vontade ficar na região. No vôo que o trouxe de volta ao Rio, ele comeu escondidinho de carne e tomou suco de laranja. Apesar de responder por três homicídios e formação de quadrilha, Malvar ainda não foi expulso da polícia. Ele responde a dois processos administrativos disciplinares.