Rio - Pelo menos 15 barraqueiros da tradicional Festa de São Jorge, que terminou na quarta-feira, em Quintino, foram convocados pela polícia para prestar depoimentos hoje na 28ª DP (Campinho). O delegado titular, José Otílio Bezerra, instaurou inquérito para apurar denúncias de que milícia controlou os mais de 100 pontos de venda de comidas, bebidas e artigos alusivos ao Santo Guerreiro no entorno da Igreja Matriz, cobrando taxas diárias de R$ 20 a R$ 50, durante os seis dias do evento, como O DIA noticiou.
Segundo o delegado, não está descartada a possibilidade de o padre Marcelino Modelski — que confirmou as denúncias — ser convidado para prestar esclarecimentos. “Primeiro vamos ouvir os barraqueiros. Caso seja necessário, posteriormente, o padre poderá ser chamado. Nosso objetivo é identificar integrantes dessa suposta milícia que estaria agindo naquela região”, afirmou Otílio.
Nos últimos dias, de acordo com o delegado, muitas denúncias anônimas sobre a atuação de milicianos chegaram a ele, mas mas nenhuma teria sido comprovada até agora. “Infelizmente, quando íamos checá-las, as pessoas negavam. A maior dificuldade é obter provas, já que os próprios moradores e comerciantes não colaboram com as investigações”, queixou-se.
Ontem, o padre não compareceu à Matriz de São Jorge, alegando que estava descansando do desgaste provocado pela festa, mas afirmou que continuava tentando falar com um suposto chefe da milícia. “Continuo tentando conversar com ele”, disse, sem adiantar qual seria o teor desse diálogo.
SEM MEDO
O padre agradeceu ao deputado Marcelo Freixo (PSOL), que ofereceu segurança ao pároco, por meio da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa (Alerj), mas disse que não aceitaria a proteção policial. “Por não ter recebido ameaça e por não ter medo de denunciar esses opressores (milicianos)”, declarou. “O padre corre risco de vida. Vou insistir para que ele aceite proteção especial”, frisou o deputado.
O titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), Cláudio Ferraz, disse que, com base nas reportagens de O DIA, deverá também abrir procedimento investigativo sobre o caso.
PARAMILITARES AVANÇAM PARA A ZONA NORTE
Depois da Zona Oeste, onde atuam principalmente nos bairros de Jacarepaguá e Campo Grande, as milícias estão expandindo seus domínios para a Zona Norte. Entre eles está o complexo formado pelos morros do Dezoito, do Saçu e da Caixa D’Água, que abrange os bairros de Água Santa, Encantado, Engenho de Dentro e Quintino, controlados até o ano passado por traficantes da facção criminosa Amigos dos Amigos.
Grupos paramilitares também controlam os morros do Fubá, em Campinho, e São José Operário, na Praça Seca. As favelas foram tomadas do Comando Vermelho (CV). Dominados pela mesma facção, os morros do Amor, no Lins de Vasconcelos, e Camarista Méier, no Engenho de Dentro, também já sofreram investidas.
Em diversas ruas da Piedade e Quintino, integrantes da segurança ilegal circulam armados e de rádio, cobrando, de porta em porta, as ‘mensalidades’. As taxas variam de R$ 15 a R$ 20, conforme recibo obtido por O DIA. O pagamento iria para a Associação dos Moradores da Rua Utupeva. Mas, segundo a Região Administrativa da Prefeitura do Rio em Madureira, a entidade não é registrada. No número 385 da Rua Utupeva, citado abaixo do recibo, moradores disseram que não funciona nenhuma associação.
Roupas pretas são proibidas
Além da cobrança de taxas em troca de ‘segurança’, os milicianos também exploram centrais clandestinas de TV a cabo, segundo denúncias. Os paramilitares interfeririam até na maneira como os moradores se vestem — roupas pretas são proibidas, pois é a cor das peças usadas pelos milicianos — e como devem chegar de carro em casa — sempre com a luz interna acesa, vidros abertos e velocidade baixa.
Essas e outras ‘regras’ foram anunciadas pelos integrantes do bando numa reunião recente com moradores de Quintino. No encontro, os paramilitares avisaram ainda que estavam grampeando telefones na região para evitar denúncias.
Nas comunidades dominadas pelas milícias, dezenas de moradores foram expulsos de suas casas. Já no comércio, muitas lojas fecharam as portas. Isso porque alguns restaurantes, por exemplo, eram obrigados a fornecer, de graça, dezenas de quentinhas diariamente aos grupos.