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01/11/2008 22:23:00

Milicianos expandem poder

Fugas de prisões demonstram capacidade de paramilitares de corromper também atrás das grades

Adriana Cruz e Márcia Brasil

Rio - Cruéis nas ruas, os milicianos mostram poder nas cadeias. A ação dos grupos paramilitares nos presídios — classificados pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado como integrantes do crime organizado — é comparada às facções criminosas, como o Comando Vermelho. Em comum, as quadrilhas têm armas de guerra, munição, dinheiro e respondem por execuções.

Milícia com maior poder de articulação já identificada pela polícia, a ‘Liga da Justiça’ — comandada pelos irmãos Natalino José Guimarães, deputado estadual, e Jerônimo Guimarães Filho, vereador — demonstrou ter muita força nas carceragens.

Segunda-feira, o braço-armado do grupo, o ex-PM Ricardo Teixeira Cruz, o Batman, fugiu pela porta da frente do presídio Petrolino Werling de Oliveira (Bangu 8) do Complexo de Gericinó. A fuga de Batman, avaliada em R$ 2 milhões, previa ainda o resgate do ex-PM Luciano Guinâncio, filho de Jerominho, preso em Água Santa.

Para controlar a expansão das milícias e discutir a corrupção no sistema penitenciário, o presidente da Comissão de Segurança Pública da Alerj, Wagner Montes (PDT), vai propor esta semana a criação de uma comissão especial, formada por cinco deputados, para fazer uma radiografia da situação dos presídios. “É tão importante prender quanto manter o criminoso preso”, disse.

A morte do diretor do presídio de Bangu 3, tenente-coronel José Roberto do Amaral Lourenço e a fuga de Batman fizeram soar um alerta vermelho em Brasília. Relator da CPI do Sistema Carcerário da Câmara Federal, o deputado Domingos Dutra (PT-MA) espera que seja marcada uma data para que integrantes das comissões de Segurança Pública e Direitos Humanos venham ao Rio para acompanhar as investigações e vistoriar unidades prisionais.

“O descontrole do Estado e o domínio dos grupos organizados nos presídios comprovam o avanço desses criminosos, sejam traficantes ou milicianos”, afirma Dutra.

Malvar fugiu pela porta da frente da Polinter

O domínio dos milicianos nas cadeias começou a ser revelado em janeiro. À época, o inspetor André Luiz da Silva Malvar, genro de Jerominho, escapou da Polinter de Campo Grande, então prisão especial da Polícia Civil. A fuga pela porta da frente fez com que o governador Sérgio Cabral fechasse a unidade. Desde então, presos com nível superior e policiais passaram a ser recolhidos no presídio de Bangu 8.

“No momento em que o governador Sérgio Cabral quis acabar com a Polinter, ele nos recorreu. Nos colocamos em um lugar intransponível (destacando a localização de Bangu 8), a não ser que tivéssemos pessoas uniformizadas, bem informadas sobre a rotina, apresentação do preso e documentação”, afirmou o secretário de Administração Penitenciária, Cesar Rubens Carvalho. Malvar foi recapturado em julho, na Praia de Ponta Negra, em Natal, no Rio Grande do Norte.

‘02’ DO BATAN ESTAVA EM MAGÉ

Se as cadeias de segurança máxima se mostraram frágeis diante da fuga de Batman, as de regime aberto e semi-aberto são ainda mais vulneráveis.

Integrante da milícia da Favela do Batan, Realengo, Davi Liberato de Araújo, o ‘02’ — que tinha como chefe o inspetor da Polícia Civil Odinei Fernando da Silva, 35 , o ‘01’ ou Águia —, cumpria pena de sete anos em regime semi-aberto na Colônia Agrícola Marco Aurélio Vergas Tavares de Mattos, em Magé. Logo após ter sido acusado de participar da tortura contra equipe de O DIA , Davi foi para o regime fechado do presídio Plácido Sá Carvalho e Odinei, preso.

Davi passou pelo presídio Ary Franco, em Água Santa, e sexta-feira foi transferido para o presídio Lemos de Brito, em Gericinó.

Davi e Odnei respondem por tortura, formação de quadrilha e roubo. A equipe de O DIA e um morador do Batan foram seqüestrados e torturados durante sete horas e meia em 14 de maio quando fazia reportagem sobre grupos paramilitares no Batan. Por duas semanas, a equipe morou na comunidade. Foi constatado que a milícia fazia planos para beneficiar um candidato e faria um censo. Para o delegado da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e Inquéritos Especiais, Claudio Ferraz, a milícia age dentro dos órgãos de segurança: “Eles são perigosíssimos e dominam os aparelhos do Estado”.

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