
Rio - O presidente da CPI das Milícias da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), deputado Marcelo Freixo (Psol), disse que as milícias mais fortes, como as de Campo Grande e Jacarepaguá, têm braços políticos. Segundo ele, geralmente, essas milícias lançam candidato único para não haver divisão de votos e conseguir elegê-lo. "Os partidos não têm esse controle sobre a qualidade dos seus candidatos. Pela legislação, eles podem ser candidatos."
"(As milícias) lançam um (candidato) para elegê-lo. Não lançam mais (de um) para não ter disputa entre eles e não correr risco de não eleger ninguém. É para ter chance eleitoral", afirmou o deputado. Segundo ele, esses candidatos costumam ter uma grande concentração de votos nas áreas das suas milícias.
Em Campo Grande, a Liga da Justiça é a mais forte, mas agora está enfraquecida, de acordo com o deputado. No dia 18 de setembro, a polícia prendeu em Barbacena (MG) o ex-policial militar Luciano Guinâncio Guimarães, filho do vereador Jerônimo Guimarães Filho (PMDB), o Jerominho. Luciano teria substituído seu pai e seu tio, o deputado Natalino Guimarães, ambos presos em Bangu 8, no comando da milícia.
Em Jacarepaguá, há outras milícias grandes. "Não tem como dizer quantas fortes existem, pois não sabemos exatamente onde termina uma e começa a outra, afirmou o deputado.
No início do mês, o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, Roberto Wider, determinou que os juízes eleitorais proíbam o uso de telefones celulares, câmeras fotográficas e de vídeo ou qualquer outro aparelho que capture imagens nas cabines eleitorais. Segundo ele, o objetivo é impedir a ação de grupos criminosos que planejariam coagir eleitores a fotografar a tela da urna para comprovarem o voto nos candidatos apoiados pelas quadrilhas.
De acordo com Freixo, o TRE conhece a ficha de todos os candidatos, "mas segue a orientação do TSE, que trabalha em cima da condenação. É uma decisão da sociedade achar se (os milicianos) podem ocupar ou não cargo no legislativo". Para o deputado, o fato de o TRE ter determinado a proibição de celulares nas cabines "é mais um fato que pode ajudar".
Durante a campanha eleitoral na capital fluminense, moradores de favelas teriam sofrido intimidações para votar em candidatos de milicianos e de traficantes de drogas.
Segundo Freixo, há aproximadamente 150 milícias no Rio. O que prevalece são o controle de gás, "gatonet" (TV a cabo clandestina) e extorsão direta. "O tráfico não é relevante, porque é muito residual", disse o deputado. Segundo ele, o tráfico somente ocorre em áreas onde as milícias são muito pequenas. "Milícias de Jacarepaguá e de Campo Grande não tem tráfico", afirmou.
O deputado afirmou que em 65% das áreas onde hoje tem milícia antes não existia tráfico. "Então não é verdade a polarização entre tráfico e milícia."
Segundo Freixo, há divisão de território entre várias milícias de Jacarepaguá, porém, não há articulação entre elas. "São bem organizadas porque são (formadas por) agentes públicos. Daí terem interesse em lançar candidatos para estarem próximos ao poder e tentar influenciar batalhões."
"Nós temos alguns nomes de pessoas candidatas que são investigadas por essas milícias", afirmou o parlamentar.
Segundo ele, nas eleições passadas, a milícia Liga da Justiça, em Campo Grande, elegeu o deputado estadual Natalino, conhecido como "Batman", e o vereador Jerominho, irmão de Natalino.
De acordo com o deputado, cálculos da Polícia Civil apontam que no auge das atividades da Liga da Justiça, de Campo Grande, a milícia faturava R$ 5 milhões por mês. "Hoje, essa milícia está muito enfraquecida, praticamente com as atividades encerradas." Ele afirmou que não há indícios para a existência de braços das milícias do Rio em outros Estados.
Disque-Milícia
A CPI recebeu mais de 1 mil denúncias por meio do seu serviço telefônico, que começou a operar no dia 30 de junho. A informação foi divulgada por Freixo. As denúncias, que podem ser feitas pelo telefone 0800 28 20 376, ajudam na escolha de quem vai depor, na escolha da linha de investigação e no conceito de milícia, segundo o deputado.
As informações são de Fabiana Leal do Terra