Rio - Um assassinato semana passada no município de Itaguaí, na Região Metropolitana, deixou em alerta os membros da CPI das Milícias na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj). O presidente da Federação das Associações de Moradores da cidade, Jorge Martins, de 55 anos, foi morto terça-feira, dia 19, após fazer críticas à ação de grupos paramilitares em reuniões do conselho de segurança local e em um jornal comunitário da região. Segundo amigos, Jorge tinha planejado levar denúncias ao deputado Marcelo Freixo, presidente da comissão.
O homicídio ocorreu por volta das 19h, no bairro Amendoeira. Quatro homens encapuzados em um Corsa pararam em frente à casa de Jorge e dispararam oito tiros contra ele. O filho de Jorge, que estava conversando com o pai, conseguiu fugir do bando armado. Segundo testemunhas, que não anotaram a placa do veículo, o carro fugiu em direção à estrada Rio-Santos. “A principal linha de investigação é o envolvimento de milícias no crime, pelas denúncias que recebemos”, afirmou o delegado da 50ª DP (Itaguaí), Nilton Gama.
DENÚNCIA
A hipótese do envolvimento de paramilitares locais surgiu com a descoberta de fatos ocorridos com Jorge nos últimos dois meses. Durante oito anos, ele foi dono do jornal local ‘Sem Mentira’, que era distribuído mensalmente em Itaguaí. Normalmente dedicado a criticar a administração municipal, a edição do mês passado trouxe uma nota denunciando que a associação de moradores do bairro do Engenho passou a ficar sob o domínio de milicianos. No texto, Jorge afirmava que essa tomada de poder “foi um ato de covardia e desrespeito com as lideranças que lutam por melhorias”.
MUITOS INIMIGOS
O secretário-geral da Federação, Wilson Fernandes, conta que Jorge já tinha comentado que iria procurar integrantes da CPI das Milícias para relatar a ação de grupos paramilitares em Itaguaí. Um dos filhos da vítima, que preferiu não se identificar, contou que o pai tinha muitos inimigos por causa das denúncias que fazia. “Ele morreu com valentia. Sempre defendeu a população, corria atrás de melhorias para o povo”, comentou o filho.
Ao tomar conhecimento do caso, o deputado Marcelo Freixo, presidente da CPI das Milícias, afirmou que a ação de paramilitares na cidade será investigada pela comissão. “Após a morte de Jorge, recebemos a denúncia de que ele queria nos dar informações sobre o município. É lamentável, é mais uma vida de alguém que tentava combater estes grupos. É o padrão da ação miliciana: a imposição do terror. O poder público tem que responder à altura”, afirmou.
DELEGADO: DOMÍNIO POLÍTICO
O delegado Pedro Paulo Pontes Pinho, da 32ª DP (Taquara), fez uma série de acusações na semana retrasada na CPI das Milícias. Como a visita foi fechada, só agora, com a transcrição do relato, foi possível ter acesso ao conteúdo dos ataques.
Segundo o depoimento do delegado, quando ele assumiu, em janeiro de 2007, já havia grupos paramilitares na região. Ao comentar a eleição de candidatos com suspeita de ligação com milícias, Pedro Paulo foi incisivo em confirmar o interesse de grupos em manter um domínio político sobre algumas regiões.
Pedro Paulo também criticou a falta de regulamentação do transporte alternativo. Segundo ele, grupos querem que alguns serviços fiquem na clandestinidade.
Em diversas regiões do Rio, é conhecida a prática de milicianos de dominar o transporte alternativo e a distribuição de gás e de sinal de TV a cabo. Milicianos teriam formado fortunas e estariam expandindo seus territórios. Há suspeita de milicianos que venderam áreas irregularmente para moradores em Rio das Pedras e Gardênia Azul, na Zona Oeste.
CIDADE É TERRA DE MIRRA
Itaguaí é a cidade onde morava o soldado Fabrício Fernandes Mirra, acusado de chefiar milícia na Favela da Palmeirinha, em Guadalupe e outras 15 comunidades no Rio e São Paulo, inclusive Itaguaí. Ele foi preso este mês pela Corregedoria da PM, acusado de espancar uma pessoa no bairro São Jorge, em Pinheiral, Sul Fluminense.
Em fevereiro, Mirra e mais seis homens foram presos pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco-IE) na Operação Leviatã, acusados de formação de quadrilha, mas acabaram soltos pela Justiça.
O juiz Rafael de Oliveira Fonseca, da Vara Criminal de Itaguaí, considerou que “não haveria riscos para as testemunhas” e, por isso, o grupo deveria responder ao processo em liberdade.