Perícia constata que pedaço de apenas seis milímetros foi responsável por matar João Roberto
Rio - O pedaço de bala que atingiu a cabeça e matou o menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, tinha apenas seis milímetros, três vezes menor que os fragmentos retirados da nádega do garoto e enviados ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) para exame de confronto balístico. Apesar do tamanho, a velocidade da bala permitiu que o fragmento quase atravessasse a cabeça do menino. Hoje, às 10h, parentes e amigos de João se reúnem na Catedral Metropolitana, no Centro, durante missa de Sétimo Dia. Mais de 50 taxistas, amigos de seu pai, irão em carreata do Grajaú até o local.
O fragmento entrou pela parte de trás do crânio, no lado esquerdo, e se alojou na parte da frente do lado direito. Por ser muito pequeno, a polícia descartou a possibilidade de exumar o corpo de João Roberto para sua retirada. A imagem foi analisada por peritos a partir de imagens em três dimensões feitas pelo Hospital Copa D’Or, em Copacabana, onde o menino foi atendido. A Polícia Civil cogita comprar equipamento similar para o Instituto Médico-Legal (IML).
O laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) revelou que o Palio Weekend da família de João Roberto foi atingido por 17 tiros que atingiram o carro pela parte de trás. Mesmo após a divulgação do resultado da perícia e a divulgação de imagens de câmera que flagrou toda a ação, os PMs William de Paula e Elias Costa Neto, do 6º BPM (Tijuca), insistem com amigos e parentes na versão de que trocavam tiros com bandidos. A dupla está presa no BEP (Batalhão Especial Prisional), em Benfica. O crime ocorreu domingo.
Ontem à tarde, a mãe de João Roberto, a advogada Alessandra Amorim Soares, 35, prestou depoimento na 19ª DP (Tijuca). Ela confirmou que viu o carro dos bandidos bater em outro, deu passagem para o da polícia e logo depois começaram os disparos. O porteiro de um dos prédios da Rua General Espírito Santo Cardoso, onde o carro foi alvejado, também será interrogado.
Motoristas de táxis da cooperativa Grajaú Service — onde trabalha o pai do menino, Paulo Roberto Soares, 45 — circulam com adesivo no vidro traseiro com protesto contra a violência.
ENCONTRO NA MISSA
Lariza Lugdero, 8 anos, e seus pais devem ir à missa de Sétimo Dia de João Roberto hoje, às 10h, na Catedral Metropolitana, no Centro, agradecer a doação da córnea que fez a menina recuperar a visão do olho esquerdo. Sueny Kellen Oliveira da Silva, 13, que recebeu o outro órgão, começou a enxergar ontem tudo o que até então só conhecia pelo tato.
Ao tirar o curativo, a primeira imagem que a adolescente viu foi a da mãe. A emoção foi tão grande que quando perguntada sobre o que sentiu naquele momento, ela não conseguiu falar, mas traduziu sua felicidade em lágrimas. Na saída do Hospital dos Servidores do Estado, ela se encantou com os flashes dos fotógrafos. “Que bonito isso”, falou.
“Ela me olhou, sorriu e disse: ‘Mamãe, estou te vendo. Seu cabelo está tão arrumadinho!’ Eu perguntei se ela sabia que cor era a minha blusa e ela acertou”, contou Cátia Oliveira da Silva. Ela contou como a filha ficou inquieta depois da retirada do tampão. “Ela ficava me olhando, vidrada. Está louca para ir à praia, a uma pracinha e para ver a foto do João Roberto”. Sueny não terá 100% da visão por causa da extensão de sua deficiência. Ela não irá à missa hoje devido à recomendação médica por repouso.
Três dias após a cirurgia, Lariza ainda está sonolenta, mas já começa a retomar a rotina de antes da perda da visão, problema decorrente de conjuntivite bacteriana. “Quero voltar a brincar sem esbarrar nas coisas e ir para escola”, contou a menina.
Seus pais, a dona de casa Maria Lúcia Pereira e o motoboy Ricardo Ludgero, contaram que estão divididos entre a alegria de ver Lariza enxergando outra vez e a tristeza pela morte de João Roberto. “Estamos tristes e felizes ao mesmo tempo. E só temos a agradecer à família dele pelo ato generoso que devolveu a visão a minha filha”, disse Maria Lúcia.
PMs acusados de agredir estudantes de Ciep em Três Rios
Alunos do Ciep 490, no bairro Purys, em Três Rios, acusam policiais do 38º BPM (Três Rios) de abuso de autoridade e diversas agressões como tapas e pontapés, dentro da escola. A violência teria começado após os estudantes, entre 11 e 17 anos, terem debochado e chamado PMs de ‘vermes’ em referência ao caso do menino João Roberto, morto em ação de policiais do 6º BPM (Tijuca).
Após a confusão, aproximadamente 10 alunos, além de parentes e funcionários da escola, prestaram depoimento na delegacia. Alguns rapazes chegaram a passar por exame de corpo de delito. Já a versão dos dois PMs é de que se exercitavam perto do colégio quando começaram a ser xingados e, então, apreenderam os menores. O delegado Cláudio Batista abriu inquérito para apurar a denúncia de abuso de autoridade e de desacato por parte dos jovens.
O cabo William, um dos PMs que atiraram no carro da família de João Roberto, contou que seus filhos deixaram de ir à escola, pois viraram alvo de comentários.