Rio - Nos campos de batalha, o fuzil é usado para liquidar o inimigo. A arma letal, que cumpre sua missão de matar em 90% dos disparos que chegam ao alvo, mesmo a 2,5 quilômetros de distância, é hoje tão comum no Rio como já foram revólveres e pistolas. Levantamento da Polícia Federal (PF), a pedido de O DIA, mostra que 76% dos fuzis apreendidos este ano no Brasil estavam em poder do tráfico no estado.
Segundo dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm), instituído no Ministério da Justiça no âmbito da PF, 92 fuzis foram apreendidos no País de janeiro a 22 de outubro de 2007. Desses, 70 saíram das mãos de grupos criminosos do Rio.
No mesmo período, apenas um fuzil foi apreendido em São Paulo, num total de 12.180 armas de fogo tiradas de circulação, de acordo com informações da Secretaria de Segurança Pública do estado. Os números do Rio em relação ao resto do País confirmam a triste realidade que, no dia a dia das favelas, os policiais constatam e enfrentam.
“Onde há tráfico de drogas, há armas. No resto do Brasil, o tráfico no varejo não é como no Rio. Aqui os traficantes assentaram poder e se expandiram através das armas de fogo. Usam fuzil porque são beligerantes e expansionistas. Começou nos anos 70 com a pistola, nos anos 80 eram as submetralhadoras e nos anos 90, os fuzis. Agora são as metralhadoras ponto trinta. E estamos trabalhando para que isso não se desenvolva”, explica Carlos Oliveira, titular da delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae).
Enquanto a polícia tenta desarmar as 688 favelas da cidade, uma outra inimiga ainda mais poderosa começa a reforçar o arsenal bélico do tráfico: as metralhadoras ponto trinta, das quais fala Oliveira, são capazes de perfurar blindados e derrubam até helicópteros.
Das 10 apreensões de janeiro a 22 de outubro deste ano, nove foram no Rio. Três delas eram encomendas do Comando Vermelho e foram apreendidas pela PF antes que chegassem ao Complexo do Alemão, na Zona Norte.
“Há duas décadas o tráfico do Rio vem se armando. Além da necessidade de armas cada vez mais potentes para combater a polícia, aqui existem pelo menos três facções criminosas que se digladiam entre si, tanto para conquistar novos territórios como para manter os que já dominam. Para isso, precisam de armas, e quanto mais fuzis, mais poder uma facção tem. Nosso grande problema é o fuzil na mão do traficante”, avalia Eduardo Novaes, subsecretário de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio.
Para especialistas em Segurança Pública, não é absurdo afirmar que em qualquer favela do Rio há pelo menos um fuzil. As apreensões quase diárias atestam essa avaliação e vão desde um fuzil da Favela Kelson’s, na Penha, na semana passada, até sete fuzis e três metralhadoras ponto trinta no Morro Dona Marta, em Botafogo, em outubro.
PARA POLICIAIS, FUZIL É HOJE UM MAL NECESSÁRIO
Para o delegado Rodrigo Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), o fuzil não é o ideal para o combate urbano, mas passou a ser necessário.“O emprego do fuzil não foi estabelecido pela polícia, mas pelo criminoso. A polícia tem que ter poder de igualdade e só fuzil contra fuzil”, ponderou Oliveira, que foi atingido por um tiro de fuzil no pescoço durante operação na Favela da Coréia, em Senador Camará, dia 17 de outubro.
Para Sílvia Ramos, pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), apesar da realidade indicar que cresce a cada dia o poder bélico do tráfico, o mais preocupante é essa guerra urbana ser encarada como cenas do cotidiano. “Essa lógica nos trouxe aonde estamos hoje. O tráfico diz que se arma mais porque a polícia também se armas mais. Há 10 anos o Estado optou pela corrida armamentista contra o tráfico. Criminalidade urbana existe em qualquer parte do mundo, mas só aqui há um PM com um fuzil encostado numa patrulha, ao meio-dia, no meio da Avenida Rio Branco. E lá não tem favela”, alerta.