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26/5/2008 01:23:00

Obras para conter o mar

Aquecimento global pode elevar o nível do oceano em 1,5 metro e alagar região onde vivem 60 mil pessoas no Rio. Rede pluvial e de esgoto, praias e até garagens terão que ser adaptadas

Elcio Braga e Daniela Dariano

Rio - Aquecimento global e você nem esquenta? As alterações climáticas afetarão o dia-a-dia de quem vive no Rio e é preciso se preparar já, alertam especialistas. O aumento do nível do mar e a pressão dos lençóis freáticos obrigarão o governo a investir pesado na estrutura da cidade. “Alguns prédios também terão de fazer suas pequenas obras”, avisa Sérgio Besserman, presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), órgão da prefeitura que estuda o impacto das mudanças do clima no Rio.

O DIA começou ontem série sobre refugiados ambientais. Hoje, no Rio, 60 mil pessoas vivem em áreas que submergirão se o mar subir até 1,5 metro, o que pode acontecer até 2100. “Não é urgente, mas também não é a longo prazo. As obras têm que iniciar em 2020 e 2030”, explica Besserman.

Além de reparos na atual infra-estrutura, como rede pluvial e esgotamento sanitário, que passarão a apresentar problema com freqüência, serão necessárias reformas para impermeabilizar garagens em andares térreos ou subterrâneas. Ressacas serão mais violentas e alagamentos, corriqueiros.
Soluções de engenharia já estão em estudo para tentar evitar o surgimento de milhares de refugiados ambientais no Rio. Na Baixada de Jacarepaguá, região mais ameaçada, a Rio-Águas avalia implantar sistema de dragagem e bombeamento permanente. O lençol freático pressionará o subsolo e haveria inundação de áreas habitadas, como Rio das Pedras.

MENOS AREIA EM COPA

Recursos públicos terão que ser divididos com a preservação das praias. Nem todas poderão ser salvas para o lazer. Como já acontece no Leblon e no Arpoador, a prefeitura poderá precisar engordar regularmente a faixa de areia de Copacabana. Não está descartada a necessidade de enrocamento (proteção de pedras contra as ondas).

O mar quando quebra na praia, como diz Dorival Caymmi, é bonito. Mas quando invade rios, canais e lagoas, é um desastre. Os manguezais da Zona Oeste e os rios da Baixada Fluminense serão duramente afetados. Muitos ribeirinhos serão deslocados. As áreas de risco em encostas da cidade poderão crescer. Com o aquecimento global, teremos mais chuvas fortes: áreas hoje fora de risco ganharão alerta vermelho nas próximas décadas.

“ Grupo da USP (Universidade de São Paulo) tem registro de aumento do nível do mar de, mais ou menos, 50 cm nos últimos 50 anos. No futuro, as áreas mais atingidas serão Rio e Recife”, diz José Marengo, coordenador do grupo de estudos de mudanças climáticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos. Por enquanto, o Município e o Estado do Rio estão em fase de planejamento. Não há planos concretos. “A população tem que ficar em cima dos governos para cobrar que os estudos continuem e que haja obras”, alertou o presidente do IPP.

DESLOCADO PELO LIXÃO: CALVÁRIO DE UM NÔMADE NO MORRO DO CÉU

Tudo o que Dejair Carrarine, 62 anos, construiu trabalhando desde os 8 na lavoura de Monte Verde (MG) está enterrado sob montanha de lixo. Foi com o pouco que conquistou no campo que comprou seu terreno no Morro do Céu, em Niterói. Mas, em 1991, começou seu calvário.

“Pagaram minha casa e o terreno e me ofereceram este lugar para morar, sem documento”, conta o hoje comerciante, deslocado para residência nas imediações da primeira, que deu lugar a lixão, indesejável vizinho de seu atual quintal. O martírio de Dejair continua. A Prefeitura de Niterói licita amanhã a operação de aterro sanitário ao lado do lixão. Das 70 residências que serão desocupadas, só 15 têm documentação. Muitos moradores, como Dejair, receiam perder o teto e não ser indenizados.

O ambientalista Sérgio Ricardo de Lima acusa o estado de decretar plano de resíduos sólidos que dá exclusividade a aterros sanitários e critica a falta de análises para escolher locais dos aterros. O ex-secretário estadual de Ambiente e futuro ministro Carlos Minc alega que decreto não veda tecnologias mais avançadas, só proíbe lixões.

Moradora do Morro do Céu, Maria das Graças Fernandes Silva, 59, sente-se na iminência de se tornar uma refugiada ambiental: “Levei 30 anos para construir esta casa, trabalhando das 10h às 22h. Não saio”. A Prefeitura de Niterói afirma ter R$ 9,3 milhões para as indenizações.

ESTAÇÕES DO ANO OSCILAM MAIS

Estudo inédito do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) tenta identificar o aquecimento do clima no Rio. Com base em série histórica de temperaturas nos últimos 11 anos, os especialistas não detectaram aumento da temperatura. “Percebemos que as estações de transição (outono e primavera) estão mais sensíveis a oscilações”, diz o meteorologista Lúcio de Souza.

A de transição, por trazer informações da estação anterior e posterior, normalmente tem variações. “As mudanças, porém, são mais intensas. Era para ser mais suave. Este mês tivemos temperatura de 11 graus na Região Serrana. Às vezes, não chega a tão pouco no inverno”, assinala Lúcio.

Os dados do Rio, somados a estudo sobre temperaturas na Amazônia no mesmo período, serão apresentados em congresso no fim do ano, na Austrália. Uma segunda parte do trabalho abrangerá dados do clima nos últimos 30 anos, conforme padrão da Organização Mundial de Meteorologia.

A Coordenação de Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe), da UFRJ, também estuda as mudanças no Estado do Rio e sugere que os rios da Baixada Fluminense tenham atenção. Alguns exigirão dique (barragem); outros, remanejamento habitacional.

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