Rio - Lágrimas, comoção e pedidos de justiça marcaram ontem a missa de sétimo dia do menino João Roberto Amorim, de três anos, morto por policiais militares, na Tijuca. A cerimônia reuniu cerca de 300 pessoas na Catedral Metropolitana de São Sebastião, Centro, entre amigos da família e parentes de vítimas da violência no Rio.
Após a cerimônia, o pai do menino, Paulo Roberto, agradeceu o apoio que a família tem recebido e afirmou que não perdoa os PMs que mataram seu filho. “Não tenho essa grandiosidade. Não consigo perdoar”, desabafou. Ele, que chorou abraçado à mulher Alessandra várias vezes na missa, disse que se emocionou ao ver os brinquedos do filho, quando voltou ao apartamento da família para buscar pertences. “Tenho uma ferida aberta, que ainda sangra”, afirmou.
O casal e o filho Vinícius, de nove meses, estão hospedados na casa de amigos. O taxista também elogiou a força de Alessandra para tentar superar a tragédia. “Não sei como ela está conseguindo. Qualquer barulho, até mesmo o da porta, assusta”, contou. A avó materna do menino, Cirene, 70 anos, chegou a passar mal durante a missa.
Em nota divulgada neste sábado, o casal criticou a ação que resultou na morte do filho. “João Roberto foi vítima de mais uma grave violência ocorrida no Rio,durante operação policial, sem o direito primordial de defesa, nos revelando de forma gritante, entre outras deficiências, a fragilidade do preparo das instituições que deveriam nos proteger e assegurar nossos direitos individuais”.
Saída do Rio
Paulo Roberto disse que não descarta a possibilidade de a família deixar o Rio: “Agora preciso me tratar para seguir com meu outro filho, que está vivo por milagre”. A cadeirinha onde o bebê estava, no carro, também foi atingida — por três tiros — na ação dos PMs, há uma semana.
Entre parentes de vítimas da violência no Rio, estiveram na missa as mães dos três rapazes do Morro da Providência assassinados por traficantes do Morro da Mineira, depois de serem entregues ao criminosos por militares do Exército.
No sermão, o padre Haroldo Ribeiro mandou mensagem aos presentes: “Não deixem de lutar por justiça. Acredito que, entre os que usam fardas, existem pessoas de bem”.
Uma carreata com 20 taxistas protestou contra a violência e lembrou João Roberto. Esta semana, o porteiro de um dos prédios da Rua General Espírito Santo Cardoso, onde o carro foi alvejado, deve prestar depoimento. A mãe, Alessandra, depôs sexta-feira.