João Antonio Barros e Thiago Prado
Rio - No mundo do funk o domínio é das mulheres filé e melancia. Mas na batida da milícia o ritmo é ditado pelas mulheres-laranjas. A prática foi descoberta pelos agentes da Polícia Federal ao analisar as contas bancárias de 15 pessoas investigadas por ligação com os grupos que dominam as favelas do Rio de Janeiro. Eles detectaram que, pelo menos, três mulheres foram usadas pelos próprios maridos como laranjas para ocultar os rendimentos obtidos ilicitamente na exploração de vans ilegais, TV a cabo e segurança clandestina.
Além da movimentação bancária, os policiais analisaram a evolução patrimonial das mulheres nos últimos cinco anos. No caso da mulher do major PM Dilo Soares Pereira Júnior, as distorções nas contas saltam aos olhos. Enquanto as declarações do oficial entregues à Receita Federal apresentaram pequenas variações entre renda e propriedades — mantendo-o fora de suspeitas —, as da mulher continham milhões em imóveis e transações financeiras.
Dos R$ 3,5 milhões movimentados pelo casal entre 2003 e 2007, a mulher girou R$ 3,1 milhões em suas contas. Cerca de 10% do capital está aplicado em fundos de renda fixa.
O capitão reformado da PM Epaminondas de Queiroz Medeiros Júnior é outro acusado no relatório da Delegacia Fazendária da PF de usar a mulher como laranja. Além de sócia nas empresas criadas pelo oficial, ela aparece como dona do imóvel, avaliado em R$ 1,7 milhão, no condomínio Golden Green, na Barra da Tijuca, e de um flat de alto luxo no condomínio Portogalo, em Angra dos Reis.
Também é investigada pela PF a ex-mulher do bombeiro Cristiano Girão Matias, recém-eleito vereador pelo PMN. Enquanto foi casada com o militar, suas contas bancárias estiveram recheadas. De 2003 a 2006, ela, que está endividada segundo o sistema de consulta da Serasa, girou mais de R$ 1 milhão em contas, mesmo tendo renda de R$ 1 mil por mês no período. No último ano, Girão ainda doou para ela um apartamento na Barra avaliado hoje em R$ 500 mil. Ao se separar, ele começou a namorar uma funkeira e, coincidentemente, as contas da ex-mulher secaram.
Polícia acaba com ‘pelada’
Na segunda-feira à noite, policiais da 32ª DP (Taquara) estiveram no campo de futebol em frente à Associação de Moradores de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, e interromperam a chamada ‘pelada da milícia’, que ocorre semanalmente a partir das 20h. Os agentes foram ao local para identificar suspeitos de integrar o grupo paramilitar local.
Ontem, o presidente da CPI das Milícias, o deputado estadual Marcelo Freixo, se reuniu com o superintendente da Polícia Federal, Valdinho Jacinto Caetano, para pedir os dados da Receita que ajudaram a Delegacia Fazendária a indiciar 11 chefões da milícia no Rio.
“Após fazer um levantamento do patrimônio de cada um deles, nós chegamos à conclusão técnica de que deveriam ser indiciados. É isso que a CPI pretende ter e é isso que nós vamos procurar fornecer o mais breve tempo possível”, afirmou Caetano.
LAZER LUXUOSO
Casas e flats de alto luxo na praia, festas em iates, cruzeiros pela costa brasileira, passeios de lanchas nas águas limpas de Angra dos Reis. Não se pode negar: o lazer dos homens acusados de comandar as milícias no Rio é de ótimo gosto (e caríssimo). Quase todos têm, pelo menos, um patrimônio nas regiões de veraneio do Rio.
Uma verdadeira ‘república do mar’, onde são freqüentes as reuniões dos grupos em comemorações, festas natalinas e réveillon. Entre os mais festeiros estão os irmãos Dalmir e Dalcemir Pereira Barbosa, acusados de chefiar a milícia na comunidade de Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Eles levaram a família para comemorar o aniversário de um parente em recente cruzeiro pelo litoral brasileiro.
A festa teve 16 convidados e custo de, no mínimo, R$ 12 mil para a viagem de quatro dias (levando-se em consideração a tarifa mais barata, com cabine interna). E não foi o primeiro cruzeiro da turma: aos amigos da comunidade de Jacarepaguá, Dalmir, ex-sargento da PM, costuma detalhar os passeios, com direito a jantares com cardápios de primeira e champanhe.
Os irmãos também têm gostos individuais. Dalmir passa fins de semana numa bela casa em Itaúna, Saquarema, na Região dos Lagos. Já Dalcemir prefere Angra, na Costa Verde, onde desfruta do conforto de uma mansão avaliada em R$ 1 milhão no Condomínio Portogalo — recanto de celebridades como Luciano Huck e do empresário João Araújo, pai de Cazuza.
O termômetro da efervescência do lazer dos investigados pode ser o flat da mulher de Medeiros Júnior. O local era freqüentado até 2006 pelo inspetor Félix dos Santos Tostes, apontado como chefe maior das milícias, assassinado em março de 2007. Os hóspedes vão de teleférico do apartamento à praia e a família tem ainda lancha para curtir a beleza de Angra.
Outro point dos acusados era Mangaratiba. Até serem presos, o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e seu irmão, o deputado Natalino José Guimarães, viviam numa casa à beira da areia de Ibicuí. Lá, também desfrutavam dos passeios no barco ‘Coração Valente’. A família é dona ainda de uma pousada e uma casa em Búzios.