Rio - Desde o ano passado, moradores de áreas nobres da Zona Sul presenciaram cenas que até então só conheciam pela televisão e que aconteciam nas favelas do Rio: policiais armados prendendo traficantes de drogas. A diferença é que, para capturar jovens de classe média, nenhum tiro foi disparado.
Bandidos com esse perfil se tornaram o principal alvos da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod). Foram quase 30 prisões de pessoas que abasteciam a região não só com maconha, mas principalmente cocaína e ecstasy, entorpecentes mais caros.
Na quinta-feira, durante a Operação Lâmina 2, a equipe prendeu sete acusados de traficar cocaína em Laranjeiras. Urca, Jardim Botânico e Lagoa também já foram ‘visitados’ pelos agentes da Dcod, que devem deixar a unidade especializada depois do Carnaval.
Nos bastidores, especula-se que o destino dos investigadores continue sendo a Zona Sul.
“Mas o crime tem que ser combatido onde quer que ele aconteça”, sentencia a delegada titular da Dcod, Patrícia Aguiar.
BOCAS-DE-FUMO DE LUXO
Na ação dos agentes, becos das favelas foram substituídos pelos corredores de edifícios e as bocas-de-fumo, por apartamentos de luxo. Os donos das drogas são estudantes, universitários ou até advogados, como Flávio Carino Guimarães, alvo da Lâmina 2, que está foragido. Ele é acusado de liderar o bando e tem como comparsa Leonardo Wyllie Pereira, o Léo, preso em um apart-hotel.
Acostumados a circular livremente sem levantar suspeitas, traficantes de classe média identificados pela Dcod muitas vezes não se preocupavam em ostentar. É o que mostram fotos encontradas no imóvel onde Léo morava. Numa delas, ele aparece em frente à Torre Eiffel, em Paris, na companhia da mulher. Léo pagava R$ 2.550 de aluguel por mês.
Flávio, que também mora em Laranjeiras, é outro que gosta de viajar. Na casa dele, os policiais acharam fotos do advogado em Cancún, no México. Em outras imagens, ele aparece brincando com dois cachorros e numa concessionária de automóveis, presenteando a mulher com Citroën.
Glamorização das drogas
Para o comissário Alexandre Estelita, chefe do setor de Investigações da Dcod, o que diferencia o traficante da Zona Sul dos criminosos das favelas é a forma como as drogas são encaradas: “Nas áreas nobres, há uma glamorização. O traficante acha que não está cometendo crime. Pensa que isso é só para quem mora no morro e anda armado. E pensa que nunca será preso”.
O tráfico pela Internet é outra característica que difere os dois tipos de bandidos. Em setembro, David de Aragão Paranhos Gonçalves, o Cica, e Fabiano Marinho Barbosa, o Bil, foram presos numa LAN house em Ipanema. Eles usavam o computador da loja para vender ecstasy.