Rio - Uma vida inteira sem nunca ter visto a luz do sol, o rosto dos pais, a própria imagem. Foi assim que a adolescente Sueny Kellen Oliveira da Silva viveu 13 anos até receber ontem a segunda córnea do menino João Roberto Amorim, de 4 anos. Ontem, Lariza Santos, de oito anos, que recebeu a outra córnea, tirou as ataduras e festejou a recuperação da visão. “Ela acordou e disse: ‘Papai, estou enxergando’. Eu chorei de felicidade. Fui a primeira pessoa que ela viu”, festejou Ricardo Ludgero dos Santos, 36 anos, motoboy e segurança.
Sueny, que nasceu cega, fez um pedido à mãe, a dona de casa Cátia Oliveira da Silva, antes de entrar ontem no centro cirúrgico: “Assim que eu começar a enxergar, quero ver uma foto do João Roberto”. Cátia prometeu levá-la até os pais de João para agradecê-los pela doação. “Vou sempre lembrar daquele anjo quando olhar para minha filha. Sei que palavra alguma vai confortar aquela família, mas quero agradecê-la por dar a minha filha a oportunidade de um dia enxergar”, disse, emocionada.
Assim como a cirurgia de Lariza, realizada na quarta, a de Sueny, foi bem sucedida. A da adolescente foi realizada no Hospital dos Servidores do Estado, na Praça Mauá. “Se não houver rejeição, em um mês ela poderá enxergar”, disse o médico Marco Antônio de Souza Alves, explicando que a menina não terá 100% de visão, pois a deficiência vai além da necessidade de uma córnea: “Ela tem graves problemas de má formação congênita, além da doença de cataratas. Mas para quem só via vultos, ter de 25% a 40% da visão de uma pessoa normal, é uma grande conquista”.
Marco Antônio cuida de Sueny há cinco anos. Há quatro, ela estava na fila do transplante. “Quando soubemos que minha filha seria a receptadora da córnea, choramos de felicidade”, relembrou a dona-de-casa. Sueny nasceu cega porque Cátia contraiu rubéola na gravidez. Ela deverá ter alta ainda hoje.
TONTA DE FELICIDADE
A família de Sueny deve experimentar hoje a felicidade de ver a filha enxergar. Experiência que Ricardo e a mulher, a dona-de-casa Lúcia Pereira da Silva, 35 anos, não esquecerão. “Disse para minha mulher ter cuidado para não deixar a comida queimar no fogão de tão tonta que ela está de felicidade. Não dá para descrever essa emoção”, contou ele, que quer dar um abraço no pai de João Roberto. “Graças a generosidade dos pais dele, a Lariza voltará a ser uma criança normal. Quero encontrar com eles para agradecer. Sei que nunca vou conseguir retribuir o que fizeram pela minha filha, mas quero abraçá-los. Agora eles devem estar precisando ficar sozinhos, mas quero ir na Missa de Sétimo Dia para falar com eles”, completou.
Lariza perdeu a capacidade de enxergar com o olho esquerdo como conseqüência de uma conjuntivite bacteriana. Por quase 3 meses a menina tentou esconder a deficiência dos pais por medo da cirurgia. Nesse tempo, ela deixou de ir à escola, já não conseguia brincar com os amigos como antes, nem saía para passear com os pais. Ela foi operada no Hospital Municipal Piedade.
Simulador de ações de risco
Na tentativa de evitar outras ações desastrosas, a Secretaria de Segurança promete investir pesado em tecnologia. O secretário José Mariano Beltrame pediu urgência na entrega de equipamentos comprados. As principais aquisições — já utilizadas no Paraná — são dois simuladores de tomada de decisão.
Os aparelhos, parecidos com contêineres, simulam situações de risco como troca de tiros. Quatro policiais poderão treinar simultaneamente. PMs também já passam por curso de reciclagem com o Batalhão de Operações Especiais (Bope). “Temos um problema, mas temos a melhor tropa de abordagem do mundo. Um ato insano e bárbaro como esse, vem para destruir nossos projetos. Mas tenho a convicção de que fazemos um trabalho sério.
Os policiais que não se adaptarem à essa postura sairão da polícia”, garantiu Beltrame, que irá ao Bope acompanhar os treinos.
Ele anunciou investimento de R$ 1 milhão em equipamentos não-letais e a compra de 1.550 carabinas CT-30 Taurus calibre ponto 40, que substituirão alguns dos fuzis FAL e M-16. Tiros disparados pelas novas armas não atravessam paredes, o que pode diminuir o número de vítimas inocentes. As carabinas foram compradas com verbas do governo federal.
MEDIDAS JAMAIS CUMPRIDAS
Declarações polêmicas, mas que nunca foram colocadas em prática. Assim como afirmou que expulsou os dois PMs envolvidos no caso João Roberto — o que legalmente é improcedente —, o governador Sérgio Cabral já havia anunciado, em janeiro, que como “medida de emergência” contra o crime iria proibir o transporte de caronas nas garupas das motos que circulam no Estado do Rio.
“Vão pagar aqueles coitados que têm moto e que, infelizmente, usam a moto para a finalidade correta. Mas num momento como esse, aplicamos uma legislação como a de Bogotá”, declarou, na ocasião.
No fim do ano, Cabral disse que iria acabar com o tráfico no Complexo do Alemão até fevereiro, quando começariam as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em 2007, o governador chegou a fazer uma aposta com um jornalista, garantindo que até agosto deste ano seria possível beber cerveja no boteco mais próximo de onde Tim Lopes foi morto, no Complexo do Alemão.
Reportagens de Amanda Pinheiro, Andréa Uchôa,Andréia Lopes, Christina Nascimento, Maria Inez Magalhães, Rafael Cavalcanti e Vania Cunha