Paula Sarapu e Gustavo de Almeida
Rio - Os oficiais e praças da Polícia Militar que participarem da passeata por melhorias salariais, marcada para amanhã na Praia de Ipanema, correm o risco de ser submetidos a conselhos disciplinares, que podem resultar em expulsão da corporação. Essa advertência consta em um documento de quatro páginas assinado pelo comando-geral da PM e lido quinta-feira por comandantes de alguns batalhões aos seus policiais. No fim da tarde de ontem, porém, as informações eram no sentido de que em grande parte dos quartéis a advertência havia sido meramente verbal.
Ontem, o Estado-Maior da corporação, diante da informação de que os coronéis Barbonos estavam visitando batalhões para conquistar adesões à passeata, divulgou de forma verbal uma orientação para os comandantes de unidades. Segundo essa orientação do Estado-Maior, os coronéis que visitassem cada batalhão deveriam ser levados diretamente à sala do comandante. E, de lá, só sairiam diretamente para a rua, sem poder andar pelo pátio do quartel ou ter acesso a quaisquer instalações internas da unidade.
No fim da tarde, os coronéis Paulo Ricardo Paúl e Renato Fialho visitaram o 18º BPM (Jacarepaguá) e o 31º BPM (Barra), onde foram recebidos de forma discreta. As visitas continuariam pela noite por batalhões da capital.
Na quinta-feira, em cerimônia de entrega dos novos carros à corporação, o chefe do Estado-Maior, coronel Antônio Suarez David, já havia deixado claro: quem tiver cargo de comando vai perdê-lo se participar da manifestação de amanhã. O recado, segundo ele, deveria ser passado à tropa.
Policiais contaram que o documento de quatro páginas falava de crimes militares, insubordinação e punições. Para o ex-corregedor, coronel Paulo Ricardo Paúl, um dos militantes da causa, o documento era “uma viagem ao mundo jurídico”. “Se houver repressão, aquele que reprimir vai recorrer ao abuso de autoridade e constrangimento ilegal.”
Para o coronel Francisco Vivas, dos Barbonos, um dos grupos que organizam a passeata, as ameaças podem esvaziar o movimento. “O pessoal está sendo tolhido e acho que isso pode atrapalhar. Mas vamos estar lá. Nós estamos lutando pela dignidade do policial.”
A assessoria de imprensa da PM reconheceu a existência do texto e informou que o mesmo apresentava “normas do comando e a posição do comandante sobre a manifestação”.
Policiais civis podem aderir
Apesar de os sindicatos de policiais civis terem, por unanimidade, desaconselhado a presença na passeata de domingo, em diversas delegacias houve distribuição de panfletos do movimento dos Barbonos, o “Juntos Somos Fortes”, e com alguma receptividade. A presença de policiais civis, portanto, não está descartada. Ontem, o Movimento Viva Brasil divulgou apoio à passeata, bem como a Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas (Amae), do tenente Melquisedec Nascimento.
O major Wanderby Braga de Medeiros, tido como um dos líderes do movimento que hoje tem os Barbonos à frente, foi escalado para trabalhar no 2º Comando de Policiamento de Área (Bangu), das 7h às 19h. O major já antecipou a amigos que obedecerá à escala da PM e dificilmente irá à passeata.